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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Ensaio 1.0 - Indefinivelmente...




"O mundo visto pelos olhos de um Anjo..."

   "Existem pessoas que nos tocam e nem sentimos. Existem pessoas que nos ferem, mas não deixam cicatrizes. E existem pessoas como você... que, só por existir, nos marcam para sempre."
...

   Eu ainda não sabia disso naquela noite. À beira do abismo, quando pensei que seria devorado pelos meus medos, você apareceu: linda, sedutora, indefinível. Você não pensou duas vezes ao me salvar das feras e revelar o verdadeiro significado de um milagre. Graças a você, eu passei a enxergar a vida de outro jeito, resgatando uma espécie de sentimento que foi esquecido há muitos anos atrás... Por isso, por esse e por tantos outros motivos, por todas as lembranças, momentos, conversas e também por tudo que não foi dito... Muito obrigado!
   Mas, se eu pudesse ver o mundo a partir do seu olhar, não seria dessa forma que eu enxergaria o desenrolar dos fatos... e mesmo assim, seria incapaz de definir o que aconteceu, pois o valor de um milagre é - e continuará sendo - impossível de traduzir em uma palavra...


INDEFINIVELMENTE...


"Como o amor e outras quimeras.
Como a lembrança de ter sido feliz... e de ter feito alguém feliz.
Como perceber que você ainda é capaz de amar.
Como ter a certeza de que alguém ainda acredita em você.
Como o doce sabor de um novo primeiro beijo.
Como ter a esperança de vivenciar um novo final feliz.
Como sacrificar um desejo, em troca de um milagre.
Como despertar de um sonho imensuravelmente bom... 
e sorrir, mesmo diante da realidade"


 (...)

_________________________________________


   Eu estava na sala 308 naquele momento. Você estava dormindo, mas de repente acordou assustado, como se não soubesse onde estava. Eu sorri para você, mas você nem pareceu notar; olhou na minha direção sem me ver, como se eu não existisse. Pela expressão em seu rosto, parecia estar procurando desesperadamente por alguma coisa, ou por alguém. Foi aí que eu percebi que você estava me procurando, perdido entre tons de cinza e falsas ilusões. "Eu estou aqui.", dizia, mas você não me ouvia. Ninguém me ouvia. Gritava, tentava chamar sua atenção, mas não conseguia nada além do silêncio de todos.
   Eu chorei, mas ninguém enxugou minhas lágrimas; eu me senti só, mas não havia ninguém com quem conversar; eu perdi as esperanças, mas não havia ninguém para me reanimar. Eu estava perdida, pois não tinha mais ninguém. Eu não tinha você. Eu era apenas um eco invisível aos olhos do mundo...
   Você me chamou de anjo, mas tenho mais defeitos que você. Sou mulher, mãe e amiga. Sou  imperfeita e pecadora. Sou temente ao amor... mas tenho medo da solidão. Não sou anjo ou demônio, mas posso me passar por qualquer um, se desejar. Apesar disso, não passo de mais uma pessoa vivendo neste mundo, cheia de sonhos e esperanças, mas também cheia de medos e incertezas. Uma pessoa como outra qualquer...

...

   Sigo seus passos, hesitante. Ouço as estátuas, o ritmo de seu coração, os sussurros dos seus receios.. Me desespero ao pensar que você vai desistir de mim. Estamos agora no mesmo lugar em que nos beijamos pela primeira vez...o lugar onde tudo realmente começou. Lágrimas. Eu não quero desaparecer para sempre, não quero que você me esqueça. Quero dizer que te amo. Mas... será que o que eu quero sentir é o que sinto de verdade?
   Então, pela primeira vez, pensei em tudo que vivemos e finalmente entendi. Agora, eu estou pronta para abrir meu coração e te dizer o que sinto... sem esconder mais nada.


(...)

________________________________________________


   Abro os olhos. É difícil enxergar seu rosto, pois minhas lágrimas se confundem com o seu semblante. Mas ainda posso vê-los brilhando, como duas pedras preciosas, arautos da felicidade... "Vai ficar tudo bem", eles me dizem. "Eu estou aqui." Logo, não são apenas seus olhos que insistem em dizer isso, mas também seus lábios, tentando me tranquilizar. Fico feliz. Ao menos uma última vez, posso olhar bem dentro de seus olhos, sem nenhuma hesitação. Tento falar, mas ela me repreende com um gesto, dizendo que logo a ajuda chegará, que eu preciso poupar minhas forças. Eu sei que é inútil, mas concordo com a cabeça. Já é tarde... sinto que não haverão milagres hoje. Dando um sorriso, me rendo ao momento final... mas ainda há alguma coisa pendente; ainda há algo a dizer. 
   - Eu te procurei por tanto tempo... mas agora, quando finalmente te encontrei, entendi que aquilo que eu realmente procurava estava dentro de mim, o tempo todo. Eu te agradeço por isso. Muito obrigado por ter surgido na minha vida...
   Ela sorriu. Uma lágrima escorregou dos seus olhos e desceu pela sua face, como uma estrela cadente, para repousar em meu rosto pálido e sereno. Era hora de dizer adeus...
   - Você sabia que os anjos não dizem "adeus"? - perguntei, sorrindo. - Porque não existem palavras para descrever um sentimento como a saudade. Em vez disso, eles apenas vivem plenamente até o último momento... e sorriem... diante do... inevitável...

(Pois eles sabem que a vida seguirá o seu caminho, indefinivelmente...)

As cortinas negras se fecham para sempre. A última coisa que vi foram as estrelas que brilhavam intensamente, como que tentando competir com o brilho do teu olhar.


FIM



"Com o perdão de um pecador que quis apenas sonhar uma última vez..."


**Dedicado a uma pessoa muito especial, que nunca será esquecida. Obrigado por tudo e até um dia.**


Leia também: Ensaio 0.9 - Indefinível

(Next: Ensaio 1.1 - Poker entre amigos) 

Créditos:
- Imagem do título: Angel_by_Vampirenish on Deviantart. 
- Imagem do rodapé: The_Heart_Key_by_deaddamien on Deviantart.



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ensaio 0.7 - Sob o Guarda-chuva...




Uma noite de chuva.

Foi numa noite qualquer, num período qualquer.
Chovia. Chovia forte. Chovia muito.
Dois estranhos. Sim, eles se conheciam. Eram estranhos apenas para os outros...
Um coadjuvante. Ele não será citado aqui.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva.
SIm. Havia um guarda-chuva. Era pequeno, mal dava para os dois.
Um garoto e uma garota. Dois jovens estranhos.
Estava frio, estava escuro. Estava molhado também.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva, numa noite chuvosa.
Foi uma noite inesquecível...
Voltavam para casa. Ele e ela. Ele a levava para casa.
Juntos.
Abraçados e espremidos sob aquele pequeno guarda-chuva, menor que o juízo dele...
Estava frio, estava escuro. Mas quem se importa?
Estava molhado também. Úmido. Mas e daí?
Era perfeito.
Juntos, seguiam em frente.
Ela contava histórias engraçadas. Sorria. Implicava com ele.
Ele fazia comentários idiotas. Ria. Implicava com ela.
Se envolviam  e se inebriavam.
A felicidade é um pouco estúpida. Mas está nos pequenos instantes...
Juntos, seguiam em frente.
A certa altura do percurso, ela reclamou de cansaço.
Seria verdade? Seria um motivo? Seria uma desculpa?
Ele se ofereceu para carregá-la nos braços.
Sob um pequeno guarda-chuva essas coisas acontecem.
Ela riu, ele riu, eles riram.
Ele sabia que não era forte o bastante.
Ela sabia que ele não conseguiria ir muito longe.
Ele a tomou nos braços e seguiram juntos.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva, numa noite chuvosa.
Era uma situação estranha.
Ela continuou implicando e sorrindo. Era uma combinação incomum...
Ele continuava sorrindo e implicando. Não era de todo inédito...
A chuva continuava a cair.
Por algumas quadras, ele conseguiu. Mas...
A certa altura do percurso, ele não aguentava mais.
Ela percebeu, e falou que já não estava mais cansada.
Ele prometeu que um dia a carregaria nos braços, por todo o caminho.
Ela assentiu, sorrindo, e disse que jamais se esqueceria da promessa.
Era engraçado. Era estranho. Era aceitável. Era perfeito.
Risos.
Juntos, seguiam em frente.
Ele a olhava com outros olhos.
Ela o olhava com os mesmos olhos que o fizeram olhá-la daquele jeito.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva.
E um coadjuvante encharcado e aborrecido. Passemos.

Aos poucos, a chuva abrandava.

Eis o fim do percurso.
Eles se olharam. Era a hora da despedida. O desfecho.
Ela sabia de alguma coisa.
Ele não sabia de nada.
Um abraço apertado. Um beijo simplório. Se despediram.
Ela se foi. Atravessou a rua. Os caminhos se separam.
Ele a observou partir.
Agora ele sabia.

O que importava de verdade era o jeito como ela olhava para ele, naquela noite chuvosa.
E como ele olhou para ela.
A chuva também se fora.
Era hora dele ir, também.
Eram apenas dois estranhos seguindo para casa.
E uma estranha sensação...
Adeus.




 **Dedicado à garota daquela noite inesquecível. A minha adorável (e intragável) Uxa.**


(Next: Ensaio 0.8 - Guloseimas)

- Image by Fbuk; Umbrella figure, in Deviantart. -