sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ensaio Final – O Primeiro Príncipe (I)


Tão belo quanto a própria Beleza...

O primeiro príncipe a ultrapassar a muralha se chamava Theodore, o Belo. Ele realmente tinha uma aparência que justificava o título, e por causa disso, era muito popular com as mulheres. Theodore era egocêntrico, narcisista e superficial, e sempre encarava uma conquista como mais um troféu para sustentar o seu ego.
Quando o príncipe soube da existência da princesa, imediatamente mandou chamar todos os seus servos.
- Fiquei sabendo que a mulher mais bela de todas mora em um castelo distante desse reino, e lá se mantêm cativa. Disseram-me também que ela jamais aceitou o pedido de um pretendente... Isso é verdade?
E dentre os seus servos, todos confirmaram a história. O príncipe sorriu, e era incrível como ele conseguia exibir todos aqueles dentes brancos de uma só vez.
- Veremos se ela consegue resistir ao meu charme! Aceito o desafio. Ordeno que me levem até a Princesa do Coração de Gelo!
E assim foi. O príncipe partiu no mesmo dia com sua comitiva, até a terra longínqua onde se dizia estar o castelo da lendária princesa (ufa, que frase longa!). Foram semanas e semanas de dificuldades, tendo que suportar o calor, mosquitos e outras situações pelas quais o pomposo príncipe jamais precisou passar. No final do percurso, pelo menos conseguiram chegar ao seu objetivo: a muralha do castelo.
- Montem uma barraca, montem uma barraca! – ordenava Theodore, aflito. – Preciso descansar e me recuperar totalmente dessa viagem... Não posso encontrar a Princesa desse jeito!
E enquanto repousava, continuava a mandar:
- O jantar está demorando demais, seus imprestáveis! E não se esqueçam de preparar o banho de leite de cabra! Servos, onde estão meus produtos de beleza! Servos, tragam as minhas marombas! Preciso manter a forma... Andem logo!
No dia seguinte, a comitiva nem parecia que já tinha montado acampamento: todos estavam sujos, exaustos e famintos, com exceção do príncipe, é claro.
- Muito bem! Agora que estou de volta ao natural, vamos encontrar a Princesa de uma vez por todas! Preparem o meu Alazão! Depressa!
Logo, os servos que ainda conseguiam ficar de pé vinham trazendo um elegante cavalo branco. O mais impressionante na sua aparência é que ele tinha um par de asas e sabia voar como um pássaro.
- Alazão, meu menino! – disse o príncipe, afagando a crina do animal, como se fosse um membro da família. – Está preparado? Temos uma Princesa Gelada para conquistar!
- Errr... é a Princesa do Coração de Gelo, senhor... – corrigiu o servo mais próximo.
- Que seja! Vamos! – e partiu com o corcel pelos céus, ultrapassando tanto a muralha quanto o fosso de lava. Antes que pudesse alcançar a torre, porém, foi atingido por uma bexiga cheia de água.
- O quê...? – exclamou surpreso. – Onde...? Quem...?
- Vai perguntar o porquê, também? – disse uma voz, vinda da janela da torre. A Princesa do Coração de Gelo estava debruçada ali, com um sorriso irônico nos lábios e uma bexiga laranja na mão. Foi amor a primeira vista... Para o príncipe, é claro. Nenhuma mulher tinha jogado uma bexiga cheia d’água nele antes. Que ousado, que atraente, que mulher! Realmente, era linda como diziam, portanto mais do que adequada para ele, obviamente.
Batendo com os calcanhares nos flancos de Alazão, Theodore o guiou suavemente até a janela da torre de marfim. Ele sorriu, mostrando todos aqueles dentes brancos e brilhantes, e inflou o peito, no que achava ser uma postura bem máscula.
- Princesa, não tema! – começou ele. - Sei que por muitos anos tem esperado sozinha, enclausurada aqui nessa torre. Mas a sua espera termina aqui e agora, pois eu finalmente te encontrei! Meu nome é Theodore, o Belo, príncipe do reino ao Sul e estou aqui para libertá-la! – e sorriu novamente, todo confiante. – Venha, suba no lombo do meu...
- Com licença, você poderia parar de sorrir desse jeito? – interrompeu ela. – É que todos esses seus dentes brilhantes vão acabar me cegando... Obrigada!
O príncipe não parou de sorrir, mas resolver fazer isso com maior discrição. Analisou a princesa por completo e deu uma piscadela, lançando seu famoso olhar 43...
- Então, gata, o que estamos esperando? Venha comigo e eu te levarei para os céus! Você e eu fomos feitos um para o outro. É só olhar para nós, somos tão belos que constrangemos as outras pessoas. Nada mais certo que fiquemos juntinhos, não acha?
Dessa vez foi a princesa que o analisou dos pés a cabeça. O tal Theodore era mesmo bonitão, alto, posudo, forte e malhado. Mas, tinha alguma coisa nele estranha... sem falar que ele era muito sem noção.
- Vem cá, você tá falando sério? Você chega aqui assim, do nada, e já vem me falando essas lorotas... se enxerga! Uma dama tem que ser conquistada, você não pode me pegar e levar no lombo do seu pangaré assim, sem mais nem menos.
- Conquistá-la? Mais eu já não fiz isso, minha cara? Eu não estou aqui bem na sua frente? As mulheres se apaixonam profundamente só de olhar para esse rostinho lindo que Deus me deu!
Ao ouvir isso, a princesa deu uma gargalhada que pode ser ouvida do outro lado da muralha.
- Como é? Tá de brincadeira, né? Afe... já vi que você não sabe nada de mulher. Tchauzinho!
- O quê? E-espere! - interrompeu ele, nervoso. - Princesa, não se faça de difícil, nos fomos feitos um para o outro! Como as metades da laranja, o pão e a manteiga, o arroz e o feijão...
- Olha, já chega, tá? Calado, você é um poeta. - e fechou a janela.
Ao entrar na alcova, seu primeiro pensamento foi esse: "Que pena... era tão bonitão, chega a ser um desperdício...". Lá fora, Theodore, o Belo, chamava pela princesa, discursando sobre seus dotes físicos e como tinha certeza que ela só estava fazendo charme.
- Mas que droga... quando é que vai me aparecer um homem decente? - resmungou ela, comendo uma generosa porção de batatas-fritas.

Foi então que apareceu o Segundo Príncipe.

CONTINUA...

Leia também: "A Princesa do Coração de Gelo"

(Next: O Segundo Príncipe)

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ensaio Final – A Princesa do Coração de Gelo



Era uma vez, em um reino não tão distante...

Uma Princesa solitária que vivia em uma torre de marfim. Essa torre era a torre mais alta de um castelo cercado por um fosso cheio de lava. Apenas uma ponte estreita servia de passagem, isto se alguém conseguisse chegar até ali. Digo isso porque, além do fosso, uma gigantesca muralha de aço negro barrava a passagem dos viajantes, que deveriam refazer o caminho circundando o lugar. Não havia portas ou passagens secretas em toda a extensão da muralha. Por mais poderosos que fossem os exércitos, por mais furiosas que fossem as tempestades, ela permanecia firme e inabalável.

Mas, voltemos à Princesa. Ela era linda (e se achava ainda mais linda do que realmente era). Sua beleza lendária era conhecida por todo o reino e ia além dele, o que chamava a atenção de muitos jovens aventureiros que desejavam vê-la com os seus próprios olhos. Porém, mesmo que eles conseguissem ultrapassar a muralha, alcançar os portões do castelo e subir até a torre mais alta – o que nunca acontecera - de nada adiantaria. A Princesa, apesar de tão bela, tinha o coração feito de gelo e nunca aceitaria o pedido de um pretendente.

O porquê de o seu coração ter se tornado tão frio, ninguém sabe. Dizem que há muito tempo, ela sofreu uma terrível decepção amorosa. Outros, que ela foi amaldiçoada por uma bruxa malvada e invejosa. Eu particularmente não sei. Talvez nem ela mesmo saiba...

Bom, vocês vão entender em breve.



(Next: Parte I - O Primeiro Príncipe)


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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Especial - Desventuras Juninas


 "Alavantú..."

   Junho: mês de santos, de festividades, de comidas típicas, de tradições. Entretanto, para um cara anti-social como eu, tudo não passa de um grande tormento. Durante trinta longos dias terei que suportar o triplo das músicas de forró de gosto duvidoso, além do estrondo das bombas rojão, do cheiro "ambiente" de pólvora, da fumaça ardendo nos meus olhos (me fazendo chorar de raiva) e de uma infinidade de comidas sem graça feitas de milho (eu não gosto de milho). Se eu tentasse mencionar tudo, teria que reviver o mês inteiro, o que eu com certeza não quero fazer. Mas, dentre todas essas coisas "agradáveis", existe uma da qual eu fujo como o diabo foge da cruz: a dança.

   Não me levem a mal, eu até gostaria de dançar agarradinho, tirar uma casquinha, cheirar o cangote de uma matuta e me aproveitar de sua inocência (mesmo que fingida). O problema, o GRAVE problema, é que eu nasci com uma total incapacidade para a dança... O velho "dois pra lá, dois pra cá", para mim, é mais complexo do que física quântica. Sério. Muitas garotas já tentaram me ensinar, de primas à namoradas, mas nenhuma delas conseguiu o milagre de me fazer dançar ao menos o básico.

   Uma vez, convidei a garota mais gost.., digo, bonita do bairro para dançar um arrasta-pé no palhoção. Ela me olhou dos pés a cabeça, mas parecia surpresa com a minha ousadia (afinal, não sou lá essas coisas) e acabou concordando. Foi um dos maiores vexames da minha vida... acho que até hoje o pé esquerdo da garota não deve ter se recuperado, sem falar que eu quase tropecei em cima dela. Não chegou nem a durar uma música inteira para ela me dispensar. E o pior: depois dessa, fiquei a ver navios, pois qual era a doida que aceitaria dançar comigo? Era melhor ficar só na pamonha, mesmo não fosse a minha vibe.

   No ano seguinte, tentei dar uma de esperto e convidei a garota mais feia do palhoção para dançar. A lógica foi essa: convidar primeiro as mais feias, para tentar aprender o básico sem me preocupar com o vexame, e só depois arriscar vôos mais altos. Mas foi um desastre. Eu não só pisei no pé dela como também, depois de me empolgar um pouco, tentei rodopiá-la e acabei derrubando a besta-fera no chão. Depois dessa, nenhuma garota quis correr o risco...

   É claro que, depois de muitos fracassos, acabei desistindo. Minhas namoradas (falo no plural não por terem sido muitas, e também não por terem sido ao mesmo tempo, mas você deve ter entendido) até tentaram, mas eu sempre dava uma desculpa esfarrapada... Tá, eu até tentei aprender alguma coisa com elas, mas paciência é uma virtude da qual minhas namoradas pareciam jamais ter ouvido falar. Aí, fica difícil...

   Esse ano, protelei o quanto pude, mas chegou uma hora que não teve mais jeito e tive que ir. Chegando lá, começou a chover, e o pessoal correu para se abrigar no palhoção. Mas a chuva estava muito forte e acabou estragando a festa de qualquer jeito; o lugar foi ficando vazio e desanimado. Aproveitei para arrastar o bonde e sugeri que voltássemos para casa.

   No caminho de volta, minha namorada provocou:

  - Você bem que gostou, não é...? Parece até que jogou praga! Poxa, tava tão afim de dançar...
 - Claro que não, meu amor! - me apressei em responder. - Eu queria muito dançar com você, até andei treinando em casa, tô bem melhor sabia? Mas não esquenta, outro dia a gente vem... se você quiser... - disse, só para tentar agradar.

   Mas por dentro, deu vontade mesmo foi de gritar:

  - OBRIGADO, São Pedro! Fico te devendo uma!

(...)

"...Anarriê!"

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ensaio 1.2 - Resultado


"A dúvida é pior do que a certeza..."

   Ela acordou nervosa. Passou a noite em claro, afligida pelas suspeitas, adormecendo só pela manhã. A cabeça doía um pouco, estava indisposta naquela manhã. Esticou os braços e as pernas, rolou para um lado e continuou deitada na cama. Tentava não pensar, tentava esquecer, tentava pegar no sono, mas quando fechava os olhos sabia que não ia conseguir. A sua cabeça não parava de trabalhar, de imaginar, de antecipar uma realidade dura que estava cada vez mais perto, talvez há alguns cômodos de distância. Sentiu uma dor no baixo-ventre, uma vontade de urinar que, apesar de tentar segurar, ficava mais forte. Teve medo, muito medo. Também pudera, a bula dizia que o teste deveria ser feito, de preferência, "utilizando a primeira urina do período da manhã"...
    Engoliu em seco. Como podia ter vacilado daquela forma? Na hora, nem pensou direito. Mas sabe como é... No calor do momento a gente nunca pensa direito, tudo desaparece numa mistura de sensações... Foi tudo tão bom! Naquela noite tudo conspirou a favor deles. Estavam sozinhos, no maior clima romântico, namorando agarradinhos... não tinha como não rolar, né?
    Sorriu pela primeira vez naquela manhã. Ele era um cara bem legal, bonito e inteligente; se davam muito bem. Todo mundo dizia que eles combinavam. Até o pai dela, que nunca fora muito simpático com os seus amigos (principalmente os homens), falava bem dele. A família toda, aliás, era só elogios...
    Estavam sempre juntos. Ela o amava, tinha certeza. Nunca tinha sentido isso por nenhum outro cara... Se ela realmente estivesse grávida, como seria a reação dele? Será que ele ficaria ao seu lado? Ou será que... ele a abandonaria?
   Os minutos passavam depressa, a vontade de urinar ficava ainda mais forte. Levantou. Tinha escondido o teste na mochila e colocado esta no fundo do guarda-roupa, longe dos olhos curiosos da mãe. Depois de uns minutos, finalmente achou a mochila em meio a bagunça, e catou o teste lá dentro.
    Engoliu em seco. Estava na hora... Seguiu hesitante em direção ao banheiro, as pernas um tanto trêmulas, a cabeça em outro lugar. Sua mãe não estava em casa... bom. Assim, teria mais privacidade, contava com isso. Já dentro do banheiro, abriu a embalagem que continha o bendito teste. Era agora ou nunca, pois já estava no limite e não podia mais segurar a ansiedade.

PROCEDIMENTO

1.  Coletar  a  urina  em  recipiente  limpo, seco  e  sem  conservantes.
2. Transferir a mesma urina para o coletor de plástico que se encontra na embalagem  do teste. Colocar a urina até a medida máxima de  10 ml  do  coletor,  não  encher  o coletor até a borda.
3. Abrir o envelope pela parte picotada e retire  a  Tira-teste,  segurando-a  pela parte superior da tira.
4.  Colocar  a  tira  no  coletor  de  plástico com a urina na posição vertical durante 10 segundos.  Ter cuidado  para  não deixar  ultrapassar  o  limite  indicado pelas setas (ver verso da embalagem).
5.  Coloque  a  tira  sobre  uma  superfície plana e aguarde 5 minutos.
6. Fazer a leitura.

Obs:  Não  considerar  resultados  lidos após 10 minutos.

   Afinal, não era difícil, o maior problema era o nervosismo. Após se certificar de ter feito cada passo do procedimento corretamente, colocou a tira sobre a tampa do vaso sanitário e se sentou ao lado, muito nervosa, o coração sufocado pelo medo e pela ansiedade. Olhava para os azulejos monocromáticos a sua frente, para as teias de aranha na base da pia, mas não olhava de jeito nenhum para o lado, para a tira em cima da privada... "Tomara que dê negativo, tomara que dê negativo, tomara que dê negativo", repetia para si mesma, aflita. Logo, os cinco minutos mais longos da sua vida haviam passado. Estava na hora de fazer a leitura do teste.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Piloto 1.0 - "Ele"



"Todas as histórias tem um começo, mas nem todas elas chegam a ter um fim."



- ... ele acordou.

   A Dra. Duarte esfregou os olhos algumas vezes antes de encarar a sua assistente, que parecia estar muito aflita. Ela endireitou-se na cadeira, sem pressa, e esticou os braços, espreguiçando-se. Segundo depois, conteve um bocejo, diante da ansiedade crescente da subordinada, e ajeitou o cabelo por trás da orelha. O relógio na parede marcava exatamente três horas da manhã. Tinha sido uma madrugada incomum, sem casos graves ou grandes transtornos. Era uma rara oportunidade para se dar um merecido descanso, deixando outros cuidarem das pequenas ocorrências... Há meses a doutora não tinha uma boa noite de sono. "Droga... Será que nunca vão me deixar descansar? Dormir e sonhar um pouco... Nossa! Ahhh... Como sinto saudades dos sonhos picantes das noites de inverno, das fantasias de quando eu era apenas uma doce adolescente... Mas agora, tudo o que me resta é trabalho, preocupações e mais trabalho! Nunca vou conseguir uma vida amorosa estável desse jeito...", pensou, aborrecida, enquanto se distraía com uma caneta esferográfica, passando-a por entre os dedos. Mas acabou derrubando a caneta no chão, devido ao susto provocado pela voz chiada de sua assistente. Nunca iria se acostumar com esses guinchos.

   - Doutora...! Por favor, diga alguma coisa!

  - Dizer o quê?! Laura, eu não disse para não me pertubarem? Ando muito cansada, eu preciso de uma noite de sono, e de preferência sem nenhum incômodo, entendeu?! - respondeu ela, irritada.

   - Mas... D-Dra. Duarte, a senhora ao menos me escutou? - insistiu Laura. Sua voz chiada conseguira se tornar ainda mais aguda. Isso sim era bastante preocupante. Na verdade, era pertubador.

   - É claro... - a doutora escolhia bem as palavras, ainda aborrecida. - Eu a ouvi, mas como estava um pouco cansada, não tenho certeza do que ouvi... poderia repetir, por favor?

   - Doutora, ele acordou!!! - chiou a assistente, que suava e ofegava copiosamente. A Dra. Duarte deu um largo bocejo.

   - Ele quem, criatura...? Isso é motivo para...
   Então, ela finalmente entendeu. Sua boca permaneceu aberta; seus olhos se arregalaram. A assistente se deu por vencida e desabou na cadeira mais próxima, ainda suando muito.

   - O quê?! Não acredito... Laura! Você está mesmo me dizendo que ele acordou?!! Não pode ser... O paciente "especial"? Aquele garoto?

  Laura confirmou com a cabeça. A doutora estava pálida. "Não pode ser verdade. Isso não está acontecendo". Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro da sala. Como queria estar sonhando agora! Como queria que essa chaleira velha não tivesse atrapalhado o seu descanso! "É isso! Isso só pode ser um sonho. Não. É um pesadelo. Logo eu vou acordar, e tudo vai voltar ao normal..." Fechou os olhos e contou até três, desejando com todas as forças...

   Mas, e se não for um pesadelo? E se for a mais pura realidade? Abriu os olhos. Laura ainda estava lá, suando muito, choramingando assustada. "É real... e impossível. Merda, mas que diabos eu devo fazer?!" Essa situação inesperada fugia totalmente dos cálculos. Como única representante do departamento presente, era de sua responsabilidade. Não havia ninguém em quem se apoiar, era a sua cabeça que estava em jogo no momento. "Pense, pense... o que o Dr. Niegson faria?"

   Quando o Dr. Niegson ainda estava a frente do Departamento de Neurologia da Lótus Corp., ele comandava o setor com pulso de ferro. A Dra. Duarte o admirava e o considerava seu mentor, um exemplo a ser seguido. Fora ele quem lhe apontou como sua "sucessora", e isso a envaidecia. "O Doutor não se desesperaria, se estivesse na minha situação. Ele se manteria calmo... Ele agiria. Não se esqueça das instruções, do objetivo principal da experiência... acalme-se!" repetia a Doutora para si mesma. Não podia se deixar levar pelas emoções. "Seja fria. Tem que haver uma explicação, eu só não estou analisando da forma correta..."

   Então, lembrou-se de uma informação muito importante. Depois de se certificar que seus cálculos jamais poderiam estar errados, o Dr. Niegson ordenou-lhe, antes de ser transferido, a comunicar-se diretamente com ele, caso ocorresse algo fora do padrão. "Por menor que seja o fator, não podemos deixar nada alterar o planejamento do experimento. Não se preocupe, Amélia, isso é apenas uma garantia. Se alguma coisa acontecer e você não souber o que fazer, ligue diretamente para esse número. Nós cuidaremos do resto", dissera, com firmeza. Era um número de celular, talvez o seu número pessoal. "Devo ligar?", ponderou a Doutora. Naquela época, sempre desejou ter um motivo qualquer para falar com ele... É interessante ver como as coisas mudam.

   Resolveu ligar. Se alguém podia acalmá-la, era ele. Já se imaginava mais tranquila ao ouvir que estava tudo bem, que ela não precisava se preocupar. Mesmo assim, não conseguiu conter o nervosismo, enquanto esperava que ele atendesse. Não seria melhor desligar? "Laura pode ter se enganado, eu não deveria incomodá-lo sem ter certeza absoluta do fato...". Antes que pudesse averiguar, porém, ouviu a voz dele do outro lado da linha.

- Alô?

   Entre falar e calar-se, a Doutora acabou se engasgando. Só agora percebera que ligara diretamente do seu celular. Agora tinha que ir até o fim.

- Dr. Niegson, d-desculpe incomodá-lo a essa hora...

- Amélia? É você? - perguntou ele. - Eu te disse para ligar apenas se algo importante tivesse ocorrido... o que houve? - o tom de voz dele parecia preocupado, bem diferente do que ela esperava. Ela hesitou. Depois de alguns segundos em silêncio, disse:

- ... ele acordou.

Perfil - Ressuscitando o Blog


"Phoenix Down*, já!"

   Depois de um hiato de três meses, aqui estou eu, numa tentativa épica de ressuscitar o Setor 3 e mantê-lo atualizado mensalmente! Peço desculpas aos meus poucos leitores pelo abandono, mas prometo tratar este espaço com mais zelo daqui em diante.
   Ah, e temos novidades! Estarei postando aqui alguns textos que servirão (ou não) como rascunhos para projetos futuros. E não é só isso. Novos ensaios sairão do forno, assim como novos especiais; continuarei a escrever os prólogos (estagnados desde o distante Prólogo I, lembram?) e outras seções terão mais destaque... Enfim, aguardem os próximos posts. Espero que curtam.

P.s.: Ah, estou estudando criar um novo layout para o Blog... alguma sugestão?

*Para quem não entendeu, é um item medicinal da série FF. Dar mais detalhes estragaria a piada... entende? xD

Imagem do título: Phoenix Down by Athenazero-d1natzh




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sábado, 1 de janeiro de 2011

Perfil - Ano Novo... no trampo!


"Feliz 2011!"

   Eu sobrevivi ao camarão, à maionese, ao champanhe meia-boca e à reunião de família, mas não pude escapar da sombra nefasta das malditas obrigações do estágio. Aqui estou eu, enfurnado na empresa, trabalhando que nem um condenado, em pleno dia 01, vulgarmente conhecido como Dia da Confraternização Universal e feriado sagrado decretado pela lei e consenso geral! Argh!
   Mas, deixando de lado a minha triste sina, desejo a todos vocês um Feliz 2011!!! Que esse ano seja cheio de fortes emoções e grandes realizações para todos nós. Espero que 2011 seja bem melhor que o ano que passou... Brindemos (nem que seja com chamapanhe vagabunda...) a isso!



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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Perfil - Feliz Pós-Natal!!!


Feliz Pós-Natal!

  Infelizmente, não pude desejar-lhes um Feliz Natal porque felizmente (com o perdão da antítese) estava passando o feriadão longe da web! Comi que nem um ex-presidiário, bebi todas que eu podia (e que não podia, também) e tive uma longa conversa com o vaso. O grande porém é que as festas natalinas se foram rápido demais e já estou aqui, pegando no batente. Mas, como ninguém é de ferro, estou dando uma escapadinha do trabalho para dar uma atualizada no blog. Por sinal, esse mesmo blog que, admito, tenho deixado um pouco de lado nesse segundo semestre... Peço desculpas. Agora ,com a explosão do twitter (oh, vício), que é muito mais prático, acabei por me deixar levar pelas modernidades das redes sociais. Porém, pouco a pouco estarei retornando à pátria para renovar minhas idéias... Por isso, aguardem surpresas! 2011 vem aí e pretendo dar um novo rumo e, porque não, novos ares ao Setor 3.
  Até lá, desejo a todos um Feliz Pós-Natal!!!

Image: Natal_by_MyLittleWorld on Deviantart

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ensaio 1.1 - Poker entre amigos | Parte 2


"Alea Jacta Est!"

II

   Quatro amigos e um ilustre desconhecido estavam sentados à mesa, disposta irresponsavelmente nos limites de um precipício, prestes a começar uma épica partida de poker. Os quatro se chamavam Desejo, Paixão, Amor e Razão, e se conheciam desde a infância, apesar de já fazer algum tempo desde seu último encontro. Quanto ao ilustre desconhecido, que preferiu permanecer no anonimato, só por brincadeira, parecia a eles um conhecido de longa data, pela grande familiaridade com que se tratavam. Enfim, formalidades à parte, tudo estava pronto para a maior aposta de suas vidas: a disputa por um valioso fragmento de coração. A sorte está lançada!
(...)
   Era uma noite escura e silenciosa. A Razão dava as cartas. Após cada um dos presentes ter recebido cinco cartas, foi definido que haveria uma única rodada de apostas, tendo como valor mínimo apostado o que houvesse de mais valioso para o jogador naquele momento, ou seja, o risco era duplo. Detalhes acertados, foram às cartas.
   O Desejo não gostou do que viu inicialmente, e pediu quatro cartas, dando um largo sorriso em seguida. A Paixão sorriu em deboxe e só pediu uma carta. O Amor, um tanto inseguro, pediu três cartas. A Razão, calculista, pediu duas cartas e triscou os dentes ao ver o resultado. O jogador anônimo também pediu duas, sorrindo, e se serviu de uma porção de amendoins da tigela. Não pareceu esboçar reação diante das novas cartas. Todos prontos, estava na hora de apostar. E blefar.
   - Não sei qual é o jogo de vocês, mas não vão ganhar de mim. - começou o Desejo. - É difícil resistir ao Desejo, quando ele aparece. A tentação é forte, meus caros, e sempre vence,  às vezes sem nenhum esforço, às vezes se utilizando das mais ardilosas armas. As pessoas se deixam levar pelas aparências, não conseguem negar o impulso. E, apesar de sentirem culpados pelas suas fraquezas, sempre se entregam de cabeça ao prazer momentâneo...
   - Meu amigo Desejo, não generalize... Algumas pessoas não se deixam levar pelas aparências. - retrucou a Razão.
  - Será mesmo? Eu aposto que o culto às aparências pregado pelas massas é maior que suas tolas convicções. Prazer, satisfação imediata, beleza, status social... isso é o que move a vontade das pessoas. Lanço a minha aposta: vocês cobrem, ou não?
   - É claro que sim! - respondeu a Paixão, sorrindo maliciosamente. - Não posso negar que o desejo superficial é um demônio poderoso e astuto, que faz com que as pessoas sejam tomadas pelo instinto. Mas o que é o desejo comparado ao irresistível poder da Paixão? Não subestime a vontade que move o coração dos apaixonados! Pessoas mataram e morreram por mim. Quantas histórias não foram escritas, quantas guerras não foram travadas, quantos amantes não verteram seu sangue e eternizaram seus sentimentos em meu nome? Em seu desespero, deixam-se afogar na loucura e aceitam a humilhação só para ter a ilusão de ser correspondidos. Só a Paixão, meus caros, é capaz de destruir a sanidade e entorpecer a razão! Ninguém pode escapar a esse sentimento, que não avisa quando vai fincar raízes em nossos corações. Faço a minha aposta e pergunto: alguém aqui acredita mesmo que pode cobrir esse lance?
   A Razão ergueu as sobrancelhas e deu um largo bocejo, após ouvir o discurso. Depois de alguns segundos sem ninguém ter se pronunciado, a Razão falou:
   - Você disse que a paixão é capaz de entorpecer a razão, e não vou negar esse fato. Mas você é egocêntrico demais para perceber uma coisa: quando esse sentimento se transformar em dor e sofrimento, e nada mais parecer importar, sou eu que mantenho as pessoas vivendo. Quando o coração das pessoas é esmigalhado por aqueles que se diziam ser a sua outra metade, em quem acreditaram e depositaram a sua confiança, as suas emoções, os pequenos e preciosos momentos... quando não resta mais nada além de lembranças e lágrimas, sou eu que junto os pedaços. Eu os aconselho a seguir em frente. Eu os consolo com a razão, e os faço enxergar a realidade por trás de suas escolhas inconsequentes. Eu abro os olhos dos tolos e ceifo o afeto enraizado em seus corações. Por isso, eu sou o mais capaz de ganhar o fragmento; eu, e apenas eu serei capaz de lidar com algo tão valioso, e ao mesmo tempo, tão frágil. Por isso, aumento a aposta: quem aqui é capaz de superar as mágoas e sorrir diante de uma grande decepção?
   Diante desse discurso, todos ficaram em silêncio. O Amor, que até ali tentava tomar iniciativa para dar o seu lance, estava prestes a perder as esperanças. Será que poderia arriscar tanto? Não era por falta de forças, pois isso ele tinha de sobra. Também não era por causa da sorte, pois suas cartas estavam muito boas. O Amor hesitava por um grande motivo: era ele quem mais tinha sofrido a tristeza aterradora da perda, e a do pior tipo, que é a perda de alguém que se ama...
   Era de se esperar que o Desejo apostasse todas as suas volúpias; que a Paixão, no auge de seu discurso, arriscasse a impecabilidade de seu ego; que a Razão, pondo em cheque as apostas dos adversários, colocasse suas convicções à prova de fogo. Mas, e o Amor? O Amor era forte, mas frágil. O Amor era grandioso, mas tímido. O Amor era nobre, mas altruísta. O Amor era doce, mas amargo. O Amor era intenso, mas breve. O Amor era, mas já não era mais...
   Por isso, ao olhar para suas cartas e lembrar dos momentos vivenciados, dos sonhos compartilhados, dos sentimentos dilacerados, baixou sua mão e teve medo. Medo de arriscar tudo e passar novamente pelo melhor e pelo pior que a vida pode oferecer...
   - Eu estou fora... Não posso arriscar tudo de novo. - disse o Amor, quase sem forças.
   O Desejo e a Paixão ficaram um pouco surpresos com essa atitude, mas não fizeram muita questão de encorajar o amigo. A Razão sorriu e comentou que já esperava por isso, afinal, o Amor sempre foi um chorão que vivia a se lamentar dos fracassos da vida em seus ombros. Apenas o recém-chegado, que também parecia surpreso, dava mostras de querer incentivar o amigo. Aconselhava-o, lembrando-o de suas imensas qualidades, mas de nada adiantou, pois quando o medo de amar finca raízes no coração de uma pessoa este se fecha para sempre...
   - Mas e quanto a você? - indagou a Razão ao viajante, calculista como sempre. - Não vai dar o seu lance?
   Ele apenas sorriu, confiante, e acrescentou:
   - No momento não tenho muito a dizer, além de que é um grande prazer estar aqui com todos vocês! Há muito tempo não encontrava pessoas tão interessantes, que pra mim já soam como velhos amigos... Quanto ao jogo, podem ter certeza de que eu estou dentro. Como dizem, eu pago pra ver! Aposto tudo que tenho, além de minha amizade, é claro. Não é muito, mas pode ter um grande valor, se bem cultivada!
   - Muito bem, então. - começou a Razão. - Se todos concordam, vamos às cartas, amigos! O estilo de jogo é o poker aberto tradicional. Vamos seguir a ordem dos apostadores, ok?
  Todos compreenderam a explicação e começaram a ficar tensos, pois logo saberiam quem ganharia o raríssimo pedaço de coração. O Desejo se adiantou e baixou as cartas...
   - Tenho um par de Damas. Acho que ainda estou no jogo! - sorriu ele, apostando no blefe dos outros. Mas a Paixão deu uma larga risada de desdém e baixou as cartas sem pressa, enquanto debochava:
   - Aff! Realmente achou que poderia ganhar com isso aí...? Você sempre foi um grande blefador, um enrolão nato. Mas vou te mostrar o que EU tenho... Full House! Hahaha! Acho que vocês já eram, caros amigos. - e se adiantou para agarrar o prêmio, mas a Razão a interrompeu no ato.
   - Acho que você se enganou. EU ainda não baixei minhas cartas... - e dito isto, mostrou sua mão.
   - Quadra de setes. Pelo visto, meu jogo é mais alto que o seu. Mas é como eu digo: quatro cartas, quatro perdedores... sinto muito, senhores, mas eu não jogo para perder. - sentenciou ele.
   Ver aquilo tirou a Paixão do sério, e por pouco ela não perdeu a cabeça, mas o que fazer, só restava lamentar. Maldita Razão e sua precisão calculista! E pensar que poderia ter ganhado...
   Mas foi o Amor quem mais lamentou. Diante dele, jaziam as suas cartas, que agora, por desistência, eram inúteis. Eis o seu jogo: Quadra de noves. Poderia ter vencido a Razão, se tivesse confiado em si mesmo... mas já era tarde demais.
   Foi quando a Razão ia abocanhar o monte que o último jogador se adiantou e se preparou para mostrar suas cartas. A essa altura, todos tinham se esquecido dele. O que pensar? A Razão provavelmente já tinha ganho mesmo...
   - Eu ainda não mostrei minha mão. - disse ele, sorrindo. - Aqui está: Royal Straight Flush, naipe de copas. Acho que eu venci, né?
   Todos ficaram boquiabertos. Era simplesmente o jogo mais alto. Era quase impossível acreditar que aquele simpático estranho, que tinha sido amigável e solidário com todos, ganhara o precioso fragmento de coração, derrotando o Desejo, a Paixão, a Razão e o Amor numa épica partida de poker...
  - Mas quem diabos é você? - perguntaram todos quase ao mesmo tempo, impressionados com a façanha do viajante.
   - Eu? Pensei que já tinha sido apresentado a vocês há muito tempo! Meu nome é AMIZADE, muito prazer!
   Ele agradeceu a todos e levou consigo o pedacinho de coração que, com toda a certeza, ao seu lado encontraria a verdadeira felicidade.

FIM



(Leia também: Ensaio 1.1 - Poker entre amigos | Parte 1)
http://setor003.blogspot.com/2010/07/ensaio-11-poker-entre-amigos-em.html


Image: Poker by ~Kurobu on Deviantart


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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Especial - Como um livro simples e empoeirado guardado em algum lugar da sua estante...


"Leia-me, caro amigo"

"Como um livro de capa simples, sem atrativos estéticos ou ilustrações auto-explicativas, esquecido em algum lugar da sua estante. Um dia, você por acaso decide folheá-lo, não com grande interesse, afinal, é só um livro sem graça que sempre esteve ali e você nunca se deu o trabalho de ler. Mas, no momento em que lê o primeiro parágrafo, você começa a ficar curioso sobre qual seria a história daquele livro estranho e decide fazer uma tentativa. Aos poucos, quase sem perceber, você acaba imerso na leitura, sem conseguir desgrudar dela, linha após linha, página após página, até chegar ao seu final surpreendente e imprevisível. E aí, só aí você se dará conta de quanto tempo perdeu sem dar valor aquele livro simples e empoeirado guardado em algum lugar da sua estante... aquele livro que continha nada mais, nada menos que a história mais emocionante que você poderia ter lido em toda a sua vida. E não importa quantas vezes você volte a folheá-lo, você jamais saberá o que esperar dele, pois ainda existem muitas páginas em branco; os capítulos estarão sempre mudando e a história estará sempre seguindo, até surgirem novos personagens e novos desfechos, porque a história desse livro é o romance de uma vida. Por isso, não julgue um livro pela capa; se tiver de julgá-lo, julgue-o pelo valor de sua história, pelo quanto ele lhe emocionou e lhe divertiu, e também pelo quanto ele possa ter contribuído para que você tenha escrito as suas próprias páginas. Mas acredite, caro leitor e escritor em potencial, ainda existem muitas páginas a serem escritas... e não existe nada como o tempo."



Image: Book Story1 by Azram on Deviantart



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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ensaio 1.1 - Poker entre amigos | Parte 1


"A sorte está lançada!"

I

   Era uma noite escura e silenciosa. Sentados à mesa - disposta irresponsavelmente nos limites de um precipício - um grupo de amigos estava reunido para uma épica partida de poker. Eram amigos de infância muito queridos, do tipo que raramente se vê hoje em dia, mas já fazia um bom tempo desde seu último encontro. Eram quatro personalidades fortes e distintas, cada qual com seus trejeitos e manias, e se chamavam Desejo, Paixão, Amor e Razão.
   Geralmente, dentre todas as coisas que costumavam aprontar juntos, as partidas de poker eram das mais hilárias, pois sempre acabavam em provocações e muita confusão. O Amor sempre insistia em tentar acalmar os ânimos e acabava sendo vítima de piadas de mau gosto; a Razão não poupava os comentários ácidos nas horas mais cruciais; a Paixão sempre conseguia fazer um assunto qualquer terminar em uma pomposa referência a si mesma; e o Desejo, que era todo gracejos e indiretas, nunca deixava os petiscos dando sopa por muito tempo. Mas, apesar de um ou outro desentendimento, sabe como são os amigos; no final das contas, sempre davam o braço a torcer e tudo acabava em uma grande algazarra.
   Esta noite, porém, estavam anormalmente tensos. Hoje havia algo muito mais importante em jogo, pois não se tratava de uma simples reunião para matar as saudades. A partida daquela noite era decisiva e visava nada mais nada menos que um raro fragmento de coração, de valor inestimável.
   Depois dos cumprimentos, abraços e tapinhas nas costas, já acomodados em seus respectivos lugares, avistaram ao longe um andarilho, coberto da cabeça aos pés por um sobretudo negro. Era um estranho aos olhos dos quatro, e parecia estar muito cansado do longo caminho que percorrera. Ao se aproximar o suficiente, ele saudou o grupo com um simpático aceno de mão e um sorriso, que demorou alguns segundos para ser correspondido.
   - Boa noite, cavalheiros! - disse ele, amigavelmente. - Vejo que os senhores estão prestes a começar um joguinho! Hahaha! Será que eu poderia me juntar a vocês? Estou bastante cansado... um pouco de descanso e um tanto de diversão entre amigos podem renovar um homem! O que me dizem?
   Surpresos, os quatro simplesmente não sabiam o que responder. Quem era esse estranho falante e por que ele havia surgido do nada a essa hora da noite, justamente no local onde haviam marcado a partida? Não sabiam dizer. Era uma baita de uma coincidência, impossível ser mera obra do acaso. Alguém deve tê-lo convidado... Mas quem? Isso despertou uma pequena desconfiança, afinal, foi combinado que estariam sozinhos aquela noite. Planejaram uma disputa fechada, ou seja, sem estranhos. Teria sido o Amor a convidá-lo, não podendo negar um pedido sincero sob certa insistência? Ou teria sido a Razão, maquinando algum truque para garantir a vitória? O Desejo não poderia ter pensado em algo tão elaborado, pois era pura impulsividade... mas, será que, justamente por isso, teria dado com a língua nos dentes? E quanto a Paixão, teria sido ela a responsável? Não, seu ego era grande demais para aceitar a ajuda de qualquer um... Ou será que não?
   Temendo até onde essa dúvida poderia chegar, os quatro concordaram em silêncio em pensar com cuidado sobre a entrada do estranho no jogo, permitindo uma maior aproximação do mesmo. Mas é claro, todos mantendo os olhos bem abertos para eventuais truques... Antes de mais nada, é preciso salientar aqui que devido ao altíssimo valor do prêmio em questão, o grupo estava alheio ao sentimento mútuo de amizade e desejava apenas ganhar a disputa, custe o que custar. Mas não devemos julgá-los por isso...
   O sujeito tirou o sobretudo e logo ficou à vontade. Em menos de meio minuto, já estava fazendo piadas e contando histórias bizarras sobre as suas viagens pelo mundo. Era tão simpático e sorridente que logo a descofiança e a tensão transformaram-se em uma divertida algazarra. E foi assim até o momento infeliz em que a Razão tomou o baralho em mãos e começou a embaralhá-lo, anunciando o início da partida decisiva. Todos engoliram em seco e o silêncio pairou mais uma vez no local.
   - O que estão apostando? - perguntou o viajante.
   Depois de uma pausa significativa, a Razão respondeu, impaciente:
   - Um item raro e extremamente valioso: um fragmento de coração. Aquele mesmo, que está no centro da mesa. É algo único no mundo, por isso, se quiser entrar no jogo, terá que apostar alto... se puder, é claro. - acrescentou, secamente.
   - Um fragmento de coração!? Nossa, realmente, isso é algo muito valioso! Não tem preço, com certeza não tem preço... - comentou o sujeito, bastante surpreso. - Por um prêmio desses, qualquer um daria até mesmo a própria vida, não acham? Impressionante... Agora que soube disso, dá mais vontade ainda de jogar com vocês. Se me permitirem, eu gostaria de entrar nessa disputa...
   Essa era a deixa que estavam esperando. Queriam saber o que cada um dos outros realmente pensava a respeito da situação. Antes que a Razão pudesse responder, o Desejo logo interviu:
   - Por mim ele pode jogar. Todos nós estamos apostando tudo nesse jogo; se ele quiser arriscar, por que não?
   - É verdade... eu também não me oponho. Fica até mais emocionante, afinal, é mais uma chance de tentarem me vencer nessa... - desdenhou a Paixão, rindo.
   A Razão olhou interrogativamente para o Amor, que apenas disse, timidamente:
   - Eu não vejo por que não... 
   Como a decisão de todos foi positiva, a Razão declarou sem demora:
  - Ok. Joguemos, então!

(...)

  Continua!

(Next: Ensaio 1.1 - Poker entre amigos | Parte 2 )
http://setor003.blogspot.com/2010/11/ensaio-11-poker-entre-amigos-parte-2-em.html


Image: Poker by ~Kurobu on Deviantart



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sábado, 26 de junho de 2010

Perfil - Dica: Humano demais para ser sincero


  E não é que de repente me deparei com a obra literária de meu irmão Wolney? Criado este mês, o seu blog literário entitulado "Humano demais para ser sincero", já me interessou profundamente. E não é porque o cara é meu brother, se é isto que está pensando, caro leitor. É claro que, confesso, primeiramente o li apenas para conferir o que o gajo andava aprontando, mas não é que tive uma grande surpresa?! Não duvidava do seu potencial, longe disso, mas até que ele superou minhas expectativas iniciais... Parabéns, Wolney! Parabéns, "Caranga"! (apelido carinhoso derivado do delicioso crustáceo que, inacreditavelmente, ele nunca teve a oportunidade - e, digamos, a coragem - de provar!) Como prova de meu orgulho, cito aqui, em meu próprio blog, o seu projeto. Que continuemos escrevendo nossos pensamentos e sentimentos, até nossas mãos esfarelarem e nossos dedos caírem... Enfim, paz, amor e empatia, como dirias. Até!

Acessem: http://humanodemaisprasersincero.blogspot.com/ e confiram o trabalho do gajo!

P.s.: Peço desculpas aos leitores pela ausência de postagens neste mês de maio. Estive muito ocupado com a faculdade: trabalhos complicados, provas finais do período, enfim, sem tempo para dedicar ao blog. Mas espero que daqui para frente, tenha mais tempo sobrando, afinal, estou em férias! Hehehe!

P.p.s: Quanto ao "Ensaio 0.3 - Paraíso", creio que, depois de tanto tempo, finalmente o tenha terminado. Apesar de não estar exatamente como eu queria (por conta do espaço, o texto foi adaptado e reduzido), acho que o resultado final está razoável, para não dizer bom. Peço desculpas pela demora, contudo. ^^


Image: Bike by ~proyektvampyre on deviantart



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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Ensaio 1.0 - Indefinivelmente...




"O mundo visto pelos olhos de um Anjo..."

   "Existem pessoas que nos tocam e nem sentimos. Existem pessoas que nos ferem, mas não deixam cicatrizes. E existem pessoas como você... que, só por existir, nos marcam para sempre."
...

   Eu ainda não sabia disso naquela noite. À beira do abismo, quando pensei que seria devorado pelos meus medos, você apareceu: linda, sedutora, indefinível. Você não pensou duas vezes ao me salvar das feras e revelar o verdadeiro significado de um milagre. Graças a você, eu passei a enxergar a vida de outro jeito, resgatando uma espécie de sentimento que foi esquecido há muitos anos atrás... Por isso, por esse e por tantos outros motivos, por todas as lembranças, momentos, conversas e também por tudo que não foi dito... Muito obrigado!
   Mas, se eu pudesse ver o mundo a partir do seu olhar, não seria dessa forma que eu enxergaria o desenrolar dos fatos... e mesmo assim, seria incapaz de definir o que aconteceu, pois o valor de um milagre é - e continuará sendo - impossível de traduzir em uma palavra...


INDEFINIVELMENTE...


"Como o amor e outras quimeras.
Como a lembrança de ter sido feliz... e de ter feito alguém feliz.
Como perceber que você ainda é capaz de amar.
Como ter a certeza de que alguém ainda acredita em você.
Como o doce sabor de um novo primeiro beijo.
Como ter a esperança de vivenciar um novo final feliz.
Como sacrificar um desejo, em troca de um milagre.
Como despertar de um sonho imensuravelmente bom... 
e sorrir, mesmo diante da realidade"


 (...)

_________________________________________


   Eu estava na sala 308 naquele momento. Você estava dormindo, mas de repente acordou assustado, como se não soubesse onde estava. Eu sorri para você, mas você nem pareceu notar; olhou na minha direção sem me ver, como se eu não existisse. Pela expressão em seu rosto, parecia estar procurando desesperadamente por alguma coisa, ou por alguém. Foi aí que eu percebi que você estava me procurando, perdido entre tons de cinza e falsas ilusões. "Eu estou aqui.", dizia, mas você não me ouvia. Ninguém me ouvia. Gritava, tentava chamar sua atenção, mas não conseguia nada além do silêncio de todos.
   Eu chorei, mas ninguém enxugou minhas lágrimas; eu me senti só, mas não havia ninguém com quem conversar; eu perdi as esperanças, mas não havia ninguém para me reanimar. Eu estava perdida, pois não tinha mais ninguém. Eu não tinha você. Eu era apenas um eco invisível aos olhos do mundo...
   Você me chamou de anjo, mas tenho mais defeitos que você. Sou mulher, mãe e amiga. Sou  imperfeita e pecadora. Sou temente ao amor... mas tenho medo da solidão. Não sou anjo ou demônio, mas posso me passar por qualquer um, se desejar. Apesar disso, não passo de mais uma pessoa vivendo neste mundo, cheia de sonhos e esperanças, mas também cheia de medos e incertezas. Uma pessoa como outra qualquer...

...

   Sigo seus passos, hesitante. Ouço as estátuas, o ritmo de seu coração, os sussurros dos seus receios.. Me desespero ao pensar que você vai desistir de mim. Estamos agora no mesmo lugar em que nos beijamos pela primeira vez...o lugar onde tudo realmente começou. Lágrimas. Eu não quero desaparecer para sempre, não quero que você me esqueça. Quero dizer que te amo. Mas... será que o que eu quero sentir é o que sinto de verdade?
   Então, pela primeira vez, pensei em tudo que vivemos e finalmente entendi. Agora, eu estou pronta para abrir meu coração e te dizer o que sinto... sem esconder mais nada.


(...)

________________________________________________


   Abro os olhos. É difícil enxergar seu rosto, pois minhas lágrimas se confundem com o seu semblante. Mas ainda posso vê-los brilhando, como duas pedras preciosas, arautos da felicidade... "Vai ficar tudo bem", eles me dizem. "Eu estou aqui." Logo, não são apenas seus olhos que insistem em dizer isso, mas também seus lábios, tentando me tranquilizar. Fico feliz. Ao menos uma última vez, posso olhar bem dentro de seus olhos, sem nenhuma hesitação. Tento falar, mas ela me repreende com um gesto, dizendo que logo a ajuda chegará, que eu preciso poupar minhas forças. Eu sei que é inútil, mas concordo com a cabeça. Já é tarde... sinto que não haverão milagres hoje. Dando um sorriso, me rendo ao momento final... mas ainda há alguma coisa pendente; ainda há algo a dizer. 
   - Eu te procurei por tanto tempo... mas agora, quando finalmente te encontrei, entendi que aquilo que eu realmente procurava estava dentro de mim, o tempo todo. Eu te agradeço por isso. Muito obrigado por ter surgido na minha vida...
   Ela sorriu. Uma lágrima escorregou dos seus olhos e desceu pela sua face, como uma estrela cadente, para repousar em meu rosto pálido e sereno. Era hora de dizer adeus...
   - Você sabia que os anjos não dizem "adeus"? - perguntei, sorrindo. - Porque não existem palavras para descrever um sentimento como a saudade. Em vez disso, eles apenas vivem plenamente até o último momento... e sorriem... diante do... inevitável...

(Pois eles sabem que a vida seguirá o seu caminho, indefinivelmente...)

As cortinas negras se fecham para sempre. A última coisa que vi foram as estrelas que brilhavam intensamente, como que tentando competir com o brilho do teu olhar.


FIM



"Com o perdão de um pecador que quis apenas sonhar uma última vez..."


**Dedicado a uma pessoa muito especial, que nunca será esquecida. Obrigado por tudo e até um dia.**


Leia também: Ensaio 0.9 - Indefinível

(Next: Ensaio 1.1 - Poker entre amigos) 

Créditos:
- Imagem do título: Angel_by_Vampirenish on Deviantart. 
- Imagem do rodapé: The_Heart_Key_by_deaddamien on Deviantart.



quarta-feira, 24 de março de 2010

Especial - Filosofia da Perseverança


"Acredite..."

  "Atravesso os portões do Paraíso. Sigo em frente: triunfante, decidido, maravilhado. Eu posso ver além: todas as verdades, todas as respostas, a fonte da sabedoria. Eu posso sentir algo novo e desconhecido: sem incertezas, sem questionamentos, sem aflições. Eu vejo entes queridos: velhos amigos, pessoas saudosas que já não via há anos, e todos eles vêm sorrindo ao meu encontro. Eu também estou sorrindo, totalmente feliz: sem lamentações, sem receios, sem sofrimento. Apenas a paz... Atravesso finalmente os portões do Paraíso, mas há algo que não posso ver, e essa ausência se transforma em um lampejo de angústia em minha alma. Onde ela está? Eu percorri todo este caminho só para te encontrar, mas onde está você, meu anjo?"
(...)

  - Onde...?
  Abrem-se os olhos, relutantes. O despertar de um sonho inquieto, o fracasso e o habitual desespero. Estou deitado em um leito de hospital, confuso e com uma baita dor de cabeça. Suspiro. O que teria acontecido?
  Tento me levantar, mas não consigo. Depois de um tempo, uma enfermeira vem verificar o meu estado; colaboro com os procedimentos, sem reclamar. "O que aconteceu comigo?", pergunto. Ela não responde, me pede calma, o médico já está a caminho. Entediado, peço papel e caneta, se possível. "Para matar o tempo", informo, quando ela me questiona, um tanto desconfiada. Depois de mais alguns minutos, ela me traz o que pedi, e me tranquiliza, revelando que eu tenho muita sorte em estar vivo. "Sorte..." Agora as coisas começam a clarear um pouco. Fico imóvel por um bom tempo, refletindo sobre aquela noite. "Era ela? Teria realmente a visto?" Não importa mais. Acabou. Pelo menos, acabou para mim. Observo o papel em branco; um velho amigo, fiel confidente. Enfim, traduzo meus sentimentos em um poema, contendo muitos dos elementos de minha busca, agora reunidos em minha maturidade:

Filosofia da Perseverança


Ainda que eu soubesse
Que o amor é apenas uma quimera
Criada para tranquilizar os homens
Eu não desistiria.
Ainda que eu soubesse
Que um instante não é mais que um relâmpago
No vazio da Eternidade
Eu não desistiria.
Ainda que eu soubesse
Que sou um mero fantoche
Nas mãos de anjos e demônios
Eu não desistiria.
Ainda que eu soubesse
Que para sempre estarei condenado
Ao simples ato de sonhar
Eu não desistiria.
Ainda que eu soubesse
Que palavras doces são mentiras
Ecos de sentimentos ocultos
Eu não desistiria.
Ainda que eu soubesse
Que a felicidade é como o vidro
Cujo semblante não posso enxergar
Eu não desistiria. 
Ainda que eu soubesse
Que o paraíso não existe
E a realidade é uma amarga ilusão
Eu ainda não desistiria.
Pois jamais esqueceria
Do que me disse um amigo
Quando eu era apenas um menino:
"Se você puder acreditar em si mesmo,
Você poderá mudar o seu destino.
Se você puder acreditar nas pessoas,
Você descobrirá a essência da vida.
E se você puder fazer essas pessoas
Acreditarem nelas mesmas
Você poderá um dia mudar o mundo."
Foram essas palavras de profundo sentido
Mas de tão fácil entendimento
Que me ensinaram a continuar caminhando
Sem nunca deixar de acreditar
Pois ainda que eu ande sozinho
Pelo Vale da Sombra da Morte
Perdido dentro de mim mesmo
Eu ainda não desistiria
E não perderia a fé
Pois enquanto eu acreditar no Amor 
O impossível não existirá.
Você acredita?


  - É frustrante. - murmuro, após terminar de escrever. - Assim como a vida, em si.
  Repouso a cabeça no travesseiro e me entrego, finalmente, ao descanço merecido, mas intranquilo. Meus olhos fitam apenas o teto não familiar, e essa imagem permanece estática até a chegada de algo semelhante ao sono. 
  - Então, só me resta acreditar, não é? - sussurro, em um último delírio antes de adormecer.


**O poema original "Filosofia da Perseverança" foi escrito no ano de 2007, conseguindo o primeiro lugar no Concurso de Poesias do Colégio Almirante Tamandaré. Neste conto, reescrevo e finalizo o poema, de forma a adaptá-lo à sina do Pecador, mas não foram necessárias grandes mudanças, preservando assim a essência do original.**


Image: The_final_act_by_theflickerees - on Deviantart




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ensaio 0.4 - Werneck


"Veja o que eu vejo."

"Se a felicidade tivesse forma, qual forma seria?
Acho que deve ser algo como o vidro
Por que você geralmente não a percebe,
mas definitivamente ela está lá.
Porém, cedo ou tarde você vai perceber
Porque se você olhar de um ângulo um pouco diferente,
O vidro reflete a luz.
E o que pode ser visto,
É a prova de uma grande existência, maior que qualquer coisa
."

(...)

    Havia uma pichação na parede da estação Werneck que sempre me chamou a atenção. A primeira vez que a vi foi há muitos anos atrás; naquela época eu mal sabia ler e não compreendi exatamente o que aquelas palavras queriam dizer. Hoje - infelizmente ou não - eu posso compreendê-las muito bem...
   O texto falava sobre o verdadeiro valor da felicidade. Estava escrito em tinta escarlate, bem chamativa e legível, mas as pessoas - ocupadas em seus interesses e afazeres - não reparavam na mensagem. Por algum motivo que desconheço (ou por motivo nenhum, não sei dizer), eu acabei olhando justamente naquela direção, na primeira vez em que estive no metrô. Estávamos indo visitar uns parentes, eu e minha mãe, e ao entrarmos na plataforma de embarque da estação, notei algo escrito na parede lateral, à esquerda do mapa da cidade do Recife. É claro que tentei ler a mensagem, mas não consegui entender o conteúdo do texto. Perguntei à minha mãe o que aquilo poderia significar, mas ela estava muito apressada e apenas murmurou algo do tipo "Não solte a minha mão...!", antes de me arrastar com firmeza para o interior do vagão. Lembro que fiquei por um bom tempo pensando naquela mensagem. Depois daquele dia, muitos anos se passariam até que eu fosse rever aquela parede e finalmente compreender as palavras pichadas em tinta escarlate...

***

   Hoje, revejo aquela mesma parede, mas as palavras foram apagadas. Em seu lugar, apenas a imensidão branca e vazia, onde só se é capaz de enxergar a lembrança de dias mais felizes... ou melhor, dias que hoje parecem ter sido mais felizes, agora que fazem parte do passado. Fecho os olhos, e imagino aquela noite, quando o milagre aconteceu. "Meu anjo...". Hoje, finalmente te encontrarei, pois às custas de muitas lágrimas e sofrimento eu consegui uma pista de onde poderás estar...
   Sigo adiante, me sento em um dos bancos encardidos da estação e espero, inquieto. Minutos depois, o expresso passa inabalável, sem dar a mínima para a minha impaciência. Xingo. Sem escolha, continuo esperando. Já passa das nove... É tarde, não tenho muito tempo. Hoje talvez seja minha última chance...
   Retiro uma pequena garrafa de wisky vagabundo de dentro do bolso esquerdo do paletó. Esta sim é a minha fiel companheira, a amante dos dias sombrios, a melhor ouvinte, guardiã dos temores e receios mais profundos. "Mas que diabos...? Está quase vazia..." Examino o rótulo por alguns instantes e bebo o que resta do líquido amarelado, sem remorso. Depois de mais alguns minutos, finalmente o trem chega. Apesar de vazia, guardo cuidadosamente a garrafa no bolso, e entro no vagão. 
    "Estação Werneck. Destino: Camaragibe" - anuncia uma voz feminina. Suspiro, indiferente, e me sento em frente à janela. "Werneck..." Engraçado, nem sei o que diabos isso significa. Seria alemão? Tem uma pinta de alemão...  Enfim,  não importa. Há coisas mais importantes em jogo hoje...
   Observo a plataforma de embarque pela janela, tentando encontrar alguém interessante entre as poucas pessoas que saíram dos vagões. É um dos meus passatempos inúteis. Próximo às escadas, um grupo de jovens faz uma grande algazarra. Uns idiotas quaisquer se achando... Gente desse tipo sempre aparece no metrô (e em muitos outros lugares, infelizmente). Os ignoro. Do outro lado, vejo uma quarentona e um garotinho seguindo de mãos dadas em direção à saída, provavelmente mãe e filho. Estranho, eles me lembram do dia em que vi a pixação escrita em escarlate pela primeira vez ...
   Os jovens se dispersam. Dois deles, ao invés de descerem as escadas, como os outros, decidem ir na direção contrária, caminhando cheios de si e encarando de forma suspeita a senhora e seu filho. Noto que eles parecem estar alterados e se comportando de modo estranho... 
   - Merda...! - exclamo, antevendo o perigo. Rapidamente, me levanto e cruzo as portas retráteis, que por segundos não se fecham antes que eu pudesse fazer qualquer coisa...
    Eles se aproximam cada vez mais. A senhora, desconfiando das intenções dos dois, fica aflita e apressa o passo, segurando com mais firmeza a mão do garoto de um lado e sua bolsa de couro do outro. Vendo a reação da mulher, um deles, então, contorna a passagem de acesso à rampa, correndo até a saída e lá se prostando de forma a barrar a passagem. Sem saber o que fazer, a mulher pára, assustada. Atrás dela, o outro melinate chega lentamente, sorrindo e sacando uma navalha do bolso lateral do jeans...
    - Passa a bolsa, tia! - anunciou o Candidato a Marginal N° 1, que estava bloqueando a passagem. - Vamo logo, ou nóis fura o pirralho! - acrescentou, revelando por sua vez um canivete suiço de aparência imunda. 
   Muito nervosa e mais pálida do que giz, a mulher tremia muito. Sua reação natural foi a de abraçar o garoto com força, na tentativa de protegê-lo. "Por favor, não o machuque...!", tentou dizer, quase sem voz, e depois disso não conseguiu mais falar, devido ao nervosismo. Mas não largou a bolsa, o que irritou o Candidato a Marginal Nº 1, que se adiantou e começou a xingar, canivete em punho.
   - Bora, porra! Passa a bolsa! Quer que eu te fure, é?
   Nesse momento, eu já estava próximo o bastante do Candidato a Marginal N° 2, que estava mais atrás e de costas para mim, sem ter como reagir... Antes que ele pudesse se dar conta, já estava caído no chão, segurando dolorosamente a "dobra" da perna direita. Aproveitando o golpe de sorte, apliquei um chute com toda a força na cabeça do delinquente, deixando-o sem sentidos. Foi bem mais fácil do que pensei, vai ver porque ele estava muito chapado, ou sei lá. Mais a frente, o Candidato a Marginal N° 1, percebendo o que tinha acontecido, empurra a mulher com brutalidade, que cai no chão. Ele então tenta dar uma de esperto e puxa o pirralho para o seu lado, de modo a fazê-lo um refém, ameaçando-o com o canivete.
   - Seu filho da puta! Olha o que você fez! - xingou ele alto, apontando pra mim, furioso. - Fica longe, se não eu furo esse merdinha! Juro que eu furo ele! - e posicionou a lâmina encardida contra a garganta do garoto, que tremia.
  - "Puta merda, o que eu faço?", pensei, desesperado. "A minha intenção era apenas ajudar, e agora aqui estou eu, piorando tudo. Porra!". Acima dele, o relógio da estação mostrava que eu não tinha mais tanto tempo... O último trem passaria a qualquer momento e eu teria de pegá-lo se ainda tivesse alguma esperança de reencontrá-la... Dessa vez um atraso seria fatal, e provavelmente jamais encontrarei outra pista. Era preciso escolher: abandonar os estranhos agora e ir até ela ou ficar e arriscar perder minha última chance de revê-la...
   "Preciso resolver isso logo. Eu consigo. Vai dar tudo certo..."
   Tirei a carteira do bolso e tentei negociar. 
   - Tome, aqui tem dinheiro, pode levar. Só deixe o garoto em paz, ok? Eu não vou mais reagir...
   - Cala a boca, seu puto! - berrou ele em resposta, visivelmente nervoso. - Joga essa porra pra cá! E a bolsa da dona também! Vamo, vamo logo!
   Fiz o que ele mandou, tentando me manter calmo. Depois de apanhar a carteira e vasculhar a bolsa, ele me olhou de um jeito malicioso e arrastou o garoto até a plataforma de embarque. Tentei seguí-lo, mas ele continuou me mandando ficar longe. No chão, sem conseguir se mexer, a mãe do garoto chorava, desesperada. Foi então que eu perebi o que ele ia fazer. Ele não pretendia deixar o garoto depois de tomar certa distância, ele ia...
   - Não faça isso! - e corri na direção deles para tentar impedir, mas era tarde demais. Ele tinha empurrado o garoto nos trilhos e corrido em direção à saída, logo depois. "Mas que filho da puta..." Continuei correndo, o som do  último trem se fazendo audível não muito longe dali...
   Pulei lá embaixo, sem pensar direito, o coração acelerado. O garoto estava meio tonto, mas conseguiu se levantar. Suspendi o guri e o instrui a tomar impulso e subir na plataforma, se agarrando nas bordas. Ele assentiu e fez como eu falei. Olhei para a esquerda. O trem já estava vindo. Engoli em seco e fiz um grande esforço para tomar impulso e subir a tempo...
   Felizmente, eu consegui, pois o trem reduziu a velocidade antes de parar na estação. Se tivesse sido o expresso... Ofegante, o coração ainda palpitando, observei o garoto tentando ajudar a mãe, mais adiante. Ela chorava e o abraçava... "Ainda bem que deu tudo certo..." 
   Atrás de mim, as portas retráteis se abriram. Sorri e me virei, para entrar no vagão, quando senti uma lâmina fria perfurar minhas costas uma, duas, três vezes. O Candidato a Marginal n° 2 - que nesse meio tempo tinha acordado - devolvera na mesma moeda meu ataque surpresa anterior. Senti um líquido quente escorrer pela lateral do corpo, e cambaleei, sem forças, caindo no chão. Aproveitando o golpe de sorte, o meliante aplicou um chute com toda a força em meu abdômen, fugindo logo depois. Com os olhos quase fechados, meio tonto e gemendo devido a intensidade da dor, olhei ao acaso para o interior do vagão.
   Lá estava ela. Estava sentada, pensativa, um livro apoiado no colo. O que ela estava fazendo aqui, nessa estação? Ela me olhou de volta, surpresa, nossos olhares se cruzaram. Na mesma hora senti o peso de sua essência, o peso de toda a sua alma. É assombroso, e ao mesmo tempo, maravilhoso. Seria mesmo ela? Não seria um delírio, um último desejo materializado pela força da minha vontade? 
   Ela se levantou e veio em minha direção, cruzando as portas um segundo antes de se fecharem. O último trem se fora. Agora ela estava em pé, na minha frente, e também parecia não acreditar no que estava vendo. Por alguma razão, ela não estava onde deveria estar, e eu não fui para onde deveria ir. Era ali, o tempo todo, onde deveríamos nos encontrar... provavelmente pela última vez.

* * *

   Maravilhado, o garoto não podia desviar os olhos daquela visão estonteante. Ela era... um anjo! Sua mãe o chamava, abraçando-o com força. "Rodrigo, Rodrigo, não está me ouvindo? Vamos, temos de ir logo, antes que aqueles marginais voltem!". Relutante, ele olhou para sua mãe, se perguntando como ela poderia estar preocupada com isso quando diante deles havia um ser tão assustadoramente belo? "Não está vendo, mamãe? Olhe, olhe pra ela! É um anjo, ela é um anjo!", e se virou para adimirá-la novamente. Ele poderia olhá-la por anos e anos, pela sua vida toda, e ainda assim não se cansaria de contemplar sua beleza. Faria tudo por ela, qualquer coisa, só para ficar com ela, só para tê-la eternamente ao seu lado...
(...)
   Dona Olga jamais poderia entender o que seu filho estava olhando com tanto afinco, muito menos o que ele quis dizer com aquele estranho comentário. Ela não podia enxergá-la - mesmo estando frente a frente com aquele ser encantador - simplesmente porque não queria enxergar. Aos seus olhos, seu filho apenas olhava o marginal caído e ensanguentado, que pela graças de Deus havia brigado com seus comparsas, dando a ela e ao pequeno a oportunidade de saírem dali o mais depressa possível. "Vamos, garoto, não teime comigo, eles ainda podem estar por perto!", e ignorando os esforços do menino em permanecer no local, o arrastou pelo braço até a saída, passando apressadamente pela parede branca onde outrora havia uma pichação escarlate... Aquela mesma pichação que falava sobre a verdadeira forma da felicidade...


Image: Heaven, by Penetre - on Deviantart