terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ensaio 0.1 - Bonsai



  "Lembre-se."

  Pai e filha caminham tranquilamente pelas ruas do Bairro do Recife. Era uma bela manhã de novembro, um domingo que tinha tudo para se tornar um dia inesquecível. Os dois estavam alegres e cheios de expectativas. Era a primeira vez que a pequena Mariana visitava a famosa Feira Japonesa do Recife. Ela gostava muito de assistir aos desenhos animados japoneses (os populares animês) e também era uma leitora voraz de mangás, sendo a maioria presentes do pai, que era um aficcioando pela cultura nipônica em geral. Ansiosa, esperava finalmente conhecer de perto uma pequena fatia desse fantástico mundo e, o que é melhor, ao lado do seu pai, que raramente tinha a oportunidade de ver.
  Ela não sabia ao certo os motivos, mas seus pais infelizmente tinham se separado há alguns anos. Mariana e seu irmão mais velho continuaram morando com a mãe na antiga casa, enquanto o Pai se mudara para um pequeno apartamento no subúrbio.  No começo, ainda se viam com frequência, mas era muito chato e difícil ter de se revezar com um e com o outro, sem contar no grande desgaste emocional que ela sofria. Seus pais conversaram e acabaram concordando em espaçar as visitas ao apartamento. Foi duro, mas com o tempo ela acabou aceitando. Mesmo assim, frequentemente pedia a Deus que unisse o casal novamente, para que o Pai voltasse para casa, para que eles voltassem a ser uma família... Mas isso não aconteceu.
  Hoje era uma das raras ocasiões em que saiam juntos. Um dia conveniente para a agenda da Mãe, um dia planejado por tanto tempo pelo Pai... Passeavam de mãos dadas pela feira, reparando em cada detalhe; nas cores, nos sons, nas formas, nas pessoas. E por falar nas pessoas... tinha cada figura vestida de cosplay! Eles riram muito quando passaram uns marmanjões caracterizados de Sailor Moon (loucos ou corajosos?) zoando em meio a multidão. E lá adiante estava o Capitão Brasil batendo um papo descontraído com o Presidente Lula, sobre o futuro do nosso país. Sentados no chão mesmo, sem dar muita importância aos passantes, estavam Nara Shikamaru e o maior detetive do mundo, L, que travavam uma batalha épica no shougi. Logo adiante, jovens lolitas desfilavam pelo palco, impressionando a pequena Mariana, que se surpreendeu com a beleza das garotas e dos seus vestidos cor-de-roza, cheios de laços e babados. Encantada, perguntou ao pai:
  - Pai, elas não se incomodam com esse calorão? Tá me dando agonia só de olhar. Lá no Japão essa moda pode até pegar, mas aqui vai ser meio difícil, né?
  - Pois é. Mas lá no Japão essa moda já pegou. Faz parte da cultura deles, de certa forma...
  - Olha, olha! Vai começar outra apresentação!
  As garotas tinham se retirado do palco, dando lugar a uma alucinante apresentação de artes marciais. Os olhos de Mariana iam de um lado a outro, tentando acompanhar todos os movimentos, mas era quase impossível, devido a agilidade e técnica dos lutadores. Kung fu, aikidô, karatê, kendô... foi impressionante.
  Terminada a demonstração, surge o apresentador, todo animadinho e descontraído, pedindo a atenção do público. A tradicional cerimônia do sakê estava prestes a começar, anunciou ele, sendo rapidamente ovacionado pelos "pés-de-cana" presentes. A cerimônia do sakê consistia na quebra de dois grandes barris de carvalho, cujo conteúdo era o precioso líquido fermentado que servia de combustível para alegrar os ânimos e renovar as forças do pessoal. Percebendo que aquele já não era mais ambiente para garotinhas de dez anos de idade, o pai de Mariana sugeriu que eles fossem comer alguma coisa, afinal, ainda não tinham almoçado.
  - Mas e a cerimônia do sakê, Pai? Eu quero ver como é!
  - Vamos lá, Mari-chan, eu vou te ensinar a comer usando o hashi! Você não queria aprender a comer com os palitinhos?
  - Sério? Eba!!! Vamo, vamo! Eu quero comer lamén!
  O Pai sorriu e lá foram eles até a barraquinha de lamén. Ele não era lá um especialista na técnica milenar de se comer usando os palitinhos, mas mesmo assim, tentou ensinar o pouco que sabia, meio atrapalhado, a custa de muitas gargalhadas dos dois. Mariana pegou o jeito rápido, deixando-o abobado.
  - Esses jovens de hoje! Impressionante! Você é mesmo muito esperta, Mari-chan.
  - Que nada, papai! O senhor é que é meio bobo e não consegue fazer direito... deixa, eu te ensino!
  - Olha só... já tá querendo me ensinar, é? - observou ele, erguendo a sobrancelha.
  - Imagina...! - respondeu ela, piscando o olho. O Pai sorriu. Olhava-a com admiração. Era a sua única filha, um presente de Deus, e nem sempre podiam estar juntos... Ela o olhava de volta, sorrindo, como era linda. Tinha olhos brilhantes e enigmáticos, capazes de conquistar qualquer um. "Ela tem os mesmos olhos da mãe...", pensou ele, com o coração apertado pela saudade. Por que será que as coisas tinham acabado desse jeito?
  - Papai... está chorando? - reparou Mariana, aflita. - O que foi? O que foi, papai?
  - Não é nada... foi só um cisco que entrou no meu olho. - respondeu rapidamente, enxugando as lágrimas. - Vamos. Ah, acabei de ter uma idéia: deixe-me te comprar um presente, algo para você guardar de recordação e assim sempre se lembrar desse dia... Pode ser?
  - Claro! O que é?
  - Pode ser qualquer coisa. Escolha o que quiser. E então?
  - Ebaa!!! Tá certo, então!
  Saíram juntos, parando em cada uma das barraquinhas mais próximas, procurando algo que a agradasse, mas sem obter sucesso. Meia hora depois, já um pouco cansados, foram até a praça, afim de descansar uns minutos à sombra das árvores. Perto da fonte, eles logo repararam em várias tendas que chamavam bastante a atenção, expondo seus inúmeros bonsais. Mariana logo se aproximou, animada.
  - Olha, papai! Olha só, que lindo!
  O Pai também se aproximou, observando atentamente uma miniatura de cerejeira.
  - Realmente é muito bonito, além de ser bastante interessante. Eu sempre quis cultivar um bonsai quando era criança...
  Mariana estava bastante interessada num pequeno exemplar de romãzeira. Olhava-o de todos os ângulos, admirando a beleza dos frutos, o divertido tamanho singular, a composição do arranjo. Ela parecia ter achado o seu presente.
  - Papai, já sei o que eu quero. Eu quero um bonsai! Pode ser, pode, pode, pode?
  - Eu não sei... vai dar trabalho cuidar dele, minha filha. Existe toda uma técnica e...
  - Por favor, Pai! Deixa!
  - Hmm... veja bem, querida, é que eu queria te comprar um presente mais duradouro, pra você guardar de lembrança...
  - Mas Pai, eu achei tão lindo! Deixa, vai! Por favor!
  Ele refletiu por um instante e suspirou, antes de responder:
  - Tudo bem. Mas vai ter que cuidar dele, ouviu? Nada de dar trabalho para a sua Mãe.
  - Viva!!!

***

  O tempo passou rápido, pois ambos se divertiram muito. Enfim, tinha chegado a hora de ir pra casa. Apesar dos protestos de Mariana, o Pai insistiu que voltassem direto para a casa da Mãe, afinal, esse era o combinado.
  - Sua Mãe vai ficar preocupada, e com razão. Vamos, não fique assim... não precisa chorar. - pois os olhos dela já estavam cheios de lágrimas.
  - Não é justo! Ainda é cedo, papai... nós nunca fazemos nada juntos!
  - Ei, isso não é verdade. Olha, eu prometi a sua Mãe que iria levá-la direto para casa. Tente entender... eu gostaria muito de ficar mais tempo com você, mas infelizmente não dá.
  - Mas...!
  - Nada de "mas", garotinha. Já anoiteceu, está tarde e temos que ir. - encerrou ele, oferecendo a mão.
  Ela ainda resmungou algo como "Não é justo!", e segurou na mão dele. Os dois percorreram uma boa distância, até que ela recomeçou o assunto. Ignorando as reclamações da filha, o Pai a levou até a parada de ônibus. Lá, ele se agachou em frente a pequena, depositando o jarro do bonsai à sua direita, e falou bainxinho:
  - Filha, é muito difícil para mim ficar longe de você. Eu te amo, entenda isso, amo muito, muito, muito. - e beijou a face da garota. - Mas, eu combinei com a sua Mãe que te levaria para casa no mais tardar às 9 horas...
  - Mas ainda são 6 e meia!!! - bufou ela.
  - Eu sei, mas você sabe que vamos demorar para chegar lá. Vocês moram muito longe do centro da cidade. E você sabe que sua Mãe ficaria preocupada se nós demorassemos muito... sem falar que hoje é domingo, o ônibus demora muito a passar.
  - Eu sei...
  - Não fique chateada, filha. Outros dias como esse virão. Eu prometo que da próxima vez, ficaremos o final de semana inteiro juntos, que tal?
  - Tudo bem, Pai. Desculpe... mas é que eu sinto falta do senhor. É tão estranho não te ver mais em casa... não consigo me acostumar com isso. Sabe, às vezes eu choro muito, sinto saudades suas. Quando mamãe me vê assim, ela fica muito triste também. Às vezes, eu a vejo chorando escondido. Eu sei que ela ainda gosta de você, Pai! Eu só queria que vocês ficassem juntos de novo. Seria tão legal! Assim todos nós poderíamos ser felizes de novo!
  Aquele desabafo inocente foi como uma pontada no coração do Pai. Fazia tanto tempo, mas a filha ainda não tinha superado... é, talvez ela nunca superasse. Era realmente difícil. Nem mesmo a ex-mulher... e nem mesmo ele, tinham conseguido. A culpa era toda dele, de como ele tinha sido idiota e grosseiro. Se pudesse voltar no tempo...!
  - Mariana, preste bastante atenção: eu e a sua Mãe te amamos muito. Não deu certo entre nós dois, mas não queremos que você se sinta prejudicada. Se decidimos fazer dessa maneira, foi pelo seu bem! Sinto muito por tudo o que você está passando, mas apesar de separados, nós estamos do seu lado.
  - Eu só queria estar ao seu lado, Pai. Eu te amo. - disse ela, chorando. Emocionado, ele a abraçou forte, e murmurou:
  - Eu também te amo, filha.
  Alguns segundos se passaram. Mais calmo, o Pai chamou a atenção de Mariana e apontou para o céu.
  - Veja: consegue ver a estrela mais brilhante no céu?
  Mariana, os olhos ainda vermelhos e cheios d'água, demorou um pouco antes de responder:
  - Sim, é aquela ali. - e apontou.
  - Exatamente. O nome dela é Sofia. Todas as vezes que você sentir a minha falta, é só olhar para aquela estrela, a mais brilhante do céu. Eu também vou estar olhando para ela, e assim você saberá que não está sozinha. Eu jamais vou te abandonar! Eu sempre vou estar ao seu lado, não importa onde eu esteja. Porque eu sempre vou te levar aqui, no meu coração... - concluiu, a mão contra o lado esquerdo do peito.
  Ela olhou para ele, com toda a sua admiração, e sorriu. Seus olhos brilhavam como dois diamantes, iguaizinhos aos olhos da Mãe...
  - Obrigada, Pai.
   Ele a abraçou novamente, ainda mais apertado, enxugou os olhos da pequena, pegou o jarro ao seu lado e se levantou, rindo.
  - Muito bem, vamos lá: você conhece a piada do pinto que se chamava Relam?
  - Ah, Pai! O senhor já contou essa!
  - É mesmo? Hahaha! Só estava testando a sua memória!
  - Sei... eu creio.
  - É sério!
  - Papai, o senhor às vezes é tão bobo!
 
   Esperaram mais vinte minutos antes da chegada do ônibus, que pegaram sem maiores problemas. Mariana apoiou sua cabeça confortavelmente no ombro do Pai, e este passou o braço por suas costas, amparando-a. Seria uma longa viagem até a casa da Mãe, mas ao mesmo tempo, seria um momento único para os dois, um pequeno momento de felicidade onde estariam juntos.

***
 
**Dedicado a nossa pequenina estrela chamada Sofia. Sua curta passagem pela Terra não foi em vão! Nunca te esquecerei... nós sempre vamos te amar!**
 


(Next: Ensaio 0.2 - Distância)

Image: Plastic Bonsai - by ~ldinami7e - on Deviantart


domingo, 3 de janeiro de 2010

Especial - Ode ao Recomeço



"O FIM ESTÁ PRÓSSIMO"
(mas nunca é tarde para nascer de novo...!)

    É dezembro. Mês de festividades, expectativas, alegria, boas ações, tensão capitalista... Eu até gosto de toda essa atmosfera natalina, cheia de gastos absurdos, excessos, ofertas imperdíveis, cores vibrantes, neve artificial, mensagens fraternais... além dos clássicos filmes B sobre o bom velhinho. Tudo, é claro, temperado ao som de horríveis ( e pegajosos) jingles natalinos. O que posso dizer? Eu "adoro" o Natal. Todas essas coisas superficiais que nem de longe evidenciam o verdadeiro sentido da comemoração, seja do ponto de vista cristão ou não... Ah, e quanto ao meu ponto de vista preferido - a origem pagã do Natal!? As pessoas nem imaginam de onde surgem os velhos hábitos...
    Eu sei que não estou sendo muito sincero quando digo que adoro esta época (estou sendo sarcástico, na verdade), mas só queria evidenciar que nada do que citei se compara ao que existe de pior nesses tempos tão "agradáveis". Se tem algo que eu odeio mas do que tudo nessa época (ei, agora eu estou sendo sincero!) é a terrível "sina" das compras. Ter de sobreviver em meio às multidões, sem fôlego, em busca de um singelo presente que vá agradar aos seus familiares, ao seu amigo secreto, ou, quem sabe, a sua namorada (sem dúvida, dentre os citados esta seria a tarefa mais difícil), é muito cansativo e frustrante.
    Estou andando pelo centro da cidade, fumando um cigarro, tentando aparentar um ar despreocupado; é o meu primeiro dia de folga depois de tanto tempo enfurnado lá na redação... diabos, aqui estou eu, rumo às compras. Mas ao menos isso posso me dar ao luxo de fazer sem pressa... afinal de contas, estou sozinho.  É inédito, pela primeira vez em muitos natais, estou indo às compras sozinho. Dou um largo sorriso. Um dia inteiro sem ninguém para me encher o saco, ninguém dando palpites idiotas sobre isto ou aquilo, ninguém namorando estampas chamativas ou lembrancinhas esnobes... Ninguém, apenas eu e centenas de consumidores em fúria. O sorriso já não me parece tão largo assim...
    Apesar de ser imensuravelmente entediante e cansativo fazer compras (principalmente este mês), não posso comparar isto ao corre-corre lá no jornal...  comprar é de longe, melhor. Eu acho. O cotidiano me consome a sanidade e alimenta cada vez mais a minha úlcera. Stress, pressão psicológica, cobrança... mas hoje não, ao menos espero. Calma! Estamos no início do mês, o desespero e a matança geralmente ficam para a última hora. É... esse pensamento me conforta. Conto com isso. Sem falar que ainda posso curtir um pouco o meu tempo sozinho, mesmo que seja enfrentando filas e mais filas para passar o cartão de crédito... 
    Sigo. Atravesso uma rua e paquero uma loira oxigenada que passa. Que gostosa... Um tipão, desses que devem enlouquecer um cara na cama, mas que não deve ter nada na cabeça além do vazio da superficialidade. Que pena. Dou uma tragada. Sem pressa, paro em frente a uma dessas bancas de revistas que mais parecem um fiteiro. Olho algumas revistas na prateleira mais próxima e percebo que mais da metade delas fala sobre uma tal profecia maia do fim do mundo em 2012... que baboseira. As pessoas acreditam em cada uma... Ignoro. Acima, admiro uma ou outra modelo rabuda (digo, sexy) dessas revistas digitais que vendem para os adolescentes espinhentos hoje em dia. Vejo as curvas moldadas no Photoshop, uma falsa delícia... Dou mais uma tragada, enquanto imagino o quanto me divertiria com ela, se tivesse alguma chance...
    Vou passando os olhos por uma ou outra notícia nos jornais à mostra. Que tédio... Porra, finalmente reparo numa declaração estampada na primeira página do principal concorrente (e puta-que-o-pariu, também é manchete da maioria dos tablóides mais escrotos do estado!):

"Bons jornalistas são os idiotas que escolheram uma outra profissão."

    - Mas que merda...?! - exclamei, deixando cair o cigarro da boca, surpreso, após ler esses dizeres em negrito. A frase estava logo abaixo da foto de um velho e decrépito senador (como tantos outros), envolvido no mais recente escândalo político (como tantos e tantos outros) figurando nas páginas da imprensa. Esta declaração polêmica teria fervido muito mais o meu sangue se eu ainda estivesse na faculdade (e eu com certeza teria cuspido na cara do filho da puta, para depois tomar partido em  mais uma manifestação com meus colegas universitários). Mas o que mais me irritou foi... o que mais me deixou puto foi o fato de, lá no fundo, considerar aquela merda... Não digo concordar, mas... Mas agora que estou do "outro lado", formado e batizado no ofício, marcado a ferro e fogo como gado, um legítimo "formador de opinião"... Eu posso até me esforçar em assimilar um outro significado por trás destas palavras... Em resumo, a decepção da realidade frustrou meus antigos ideais. É uma merda. Mas não vou deixar que minha frustração atrapalhe o meu aborrecimento ao ler esta frase... Esse velho corrupto não vai deixar de perder seus últimos pontos por causa disso... Afinal de contas, o filho da puta quis apenas alfinetar a imprensa e eu também faço parte dela.

  "O Senador soltou esta polêmica frase que alterou os ânimos dos jornalistas presentes, após ser pressionado por quase meia hora pela imprensa, que não abria passagem enquanto o mesmo, apressado, tentava chegar ao saguão do aeroporto (...) respondendo sem pensar ao comentário de um repórter da Folha do Estado, o Senador o alfinetou toscamente, ofendendo todos os profissionais da área (...)"

    Todos nós vinhamos acompanhando o mais novo caso de corrupção no Senado durante as últimas semanas; rendeu muito "pano pra manga", o que significa muito trabalho, mas também muitos jornais vendidos. Para mim, era o suficiente. "Hoje é meu dia de folga", pensei, "e, pelo menos por enquanto, vou deixar essa pra lá."
    Retomo a caminhada, pensativo. Em pleno Natal... cagadas desse tipo e até mesmo coisas muito piores não deixam de acontecer... Na verdade, acontecem o ano todo, todos os anos. Isso me desanima um pouco. Logo eu, taxado de insensível por minhas ex-namoradas... e também pela atual. Não me leve a mal, mas... eu não sou um cara insensível, sou apenas um cara frustrado. É, é isso. Depois de tantos escandâlos, tantos podres, tantas decepções... por debaixo dos panos, não pense que o mundo é cor-de-roza. E eu não estou falando apenas de política, mas de tudo, de um modo geral. Esses velhos conceitos, como política, religião, justiça, igualdade, liberdade e amor (e outros). Não alimento maiores esperanças. Pode me chamar de pessimista. Eu me consideraria realista.
    A sociedade atual se perdeu. Vivemos em uma realidade puramente comercial, onde o que importa é como as coisas aparentam ser e não como elas são de verdade. É uma pena, mas é por aí. Até mesmo as instituições religiosas, que deveriam ser um alento de esperança, nos decepcionam envolvendo-se em escândalos e falcatruas. Já cansei de ler (e redigir) pautas sobre padres pedófilos, pastores estelionatários, terroristas islâmicos, agitadores católicos... e inúmeros outros idiotas que fingem acreditar em ideais totalmente diferentes do que realizam na prática. Tolice. São apenas uns hipócritas. Me lembro da letra de Imagine, aquela notória canção do John Lennon, e começo a entoá-la mentalmente, idealizando um mundo perfeito. Se eu fosse traduzí-la, ficaria  mais ou menos assim (aviso que não sou tão bom em inglês):

"Imagine que não há paraíso
É fácil, se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós, somente o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje
...
Imagine que não há um país
 Não é difícil de se fazer
 Nada pelo que morrer ou pelo que matar
 E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz (...)"

    Acho difícil imaginar, e mais difícil ainda se tornar realidade. Mas, sei lá, a esperança é a última que morre.
    Sigo. Enquanto caminho (pensando em todas essas coisas), chego a um beco fedorento, próximo a uma encruzilhada qualquer. Sentado no chão, escorado na parede encardida do beco, vejo um mendigo (muitas pessoas passam a vida toda sem reparar neles) segurando  um tosco pedaço de papelão onde estava escrito "O FIM ESTÁ PRÓSSIMO". Sorri naturalmente ao reparar no erro gramatical, e por este motivo decidi me aproximar do homem.
    - Olá, companheiro. Como vai? Desculpe, eu não pude deixar de notar, mas sabia que os dizeres na "placa" estão errados? - comecei, tentando ser bem cordial.
    - Como assim? - respondeu ele, dando um sorriso inesperado. Era bem mais simpático do que imaginei... e bem mais velho. Eu não mencionei, mas ele era velho. Infelizmente, não deixei de notar sua aparência lastimável: tinha uma longa barba cinzenta (que em outras condições poderia ter sido branca), muito cheia; seu cabelo era despenteado, crespo, rente ao crânio e também muito sujo; a pele era magra e pálida, um pouco manchada e encharcada de suor (o calor estava realmente desgastante naqueles dias); vestia trapos rasgados e estava descalço. Mas o que ficou registrado na minha memória (pois depois desse encontro me lembraria para sempre daquele estranho), o que mais me impressionou foi o seu jeito de olhar, como se estivesse olhando diretamente para a minha alma. Era alguma coisa no brilho daqueles olhos profundos, algo que revelava uma grande experiência. Sei lá... Ele era apenas um mendigo, mas aqueles olhos revelavam algo sobre a sua essência (na falta de um termo melhor) que eu não conseguia entender. E no momento eu não poderia compreender, mesmo se quisesse.
    - A placa diz exatamente o que tem de dizer. Não há nada errado com os dizeres dela, meu filho.
    - Não foi isso que eu quis dizer, meu velho. Acontece que... bem, não me leve a mal, mas o senhor escreveu "próximo" com "SS". É esse o erro. Me desculpe, mas eu não pude deixar de notar... queria apenas avisá-lo, entende?
    - Ah! Isso! É, realmente... mas não se preocupe, eu sabia que tava errado, escrevi assim para chamar atenção. E veja, deu certo! Certíssimo! - e deu uma gargalhada de alegria. Ele realmente se empolgara: parecia um doido varrido rindo daquele jeito...
    - Está certo! Certo, certíssimo! Não acha genial? Hahahaha!
    - ...
    "Esse velho... aposto que é um desses loucos que ficam rindo à toa por aí, depois de encher a cara. Deve ser um vagabundo, logo se vê que nem tenta arrumar um emprego decente... Pobre diabo. E veja como ele está contente, olha só em que situação fui me meter... ele deve estar bêbado, o safado."
    - Errr... até.
    Resolvi ir embora enquanto podia. De repente, o velho parou de gargalhar e perguntou em voz alta, antes que eu tivesse me distanciado:
    - Espere! Onde vai? Não poderia me ajudar? Um pequeno favor... Afinal de contas, é Natal, meu filho! - e me estendeu a mão direita, fazendo um sinal indicativo com os olhos, que eu não entendi muito bem.
    Voltei e sorri amarelo. "Ah, claro... ele quer uma esmolinha. Provavelmente para encher a cara. Mas eu não tenho nenhum trocado, que droga, quem sabe se eu desse algum, ele me deixasse ir...", pensei, aborrecido.
    - Me desculpe, senhor, mas não tenho trocado. Quem sabe na próxima? - e me virei para seguir em frente.
    - Não, não é isso! Eu estava apenas pedindo um pequeno favor, uma ajudinha sua.
    - Hã?
    - Poderia pegar este velho violão, esse aí, do seu lado direito, e trazer pra mim? Minhas costas estão me matando e minhas pernas também; só pra poupar que eu me levante, só isso! Dor na junta não é mole não, meu filho!
    Olhei para o lado. Tinha mesmo um violão escorado na parede, velho e sujo, a madeira já desgastada, com algumas cordas (umas duas) enferrujadas... eu duvidei na hora que alguém pudesse tocar qualquer coisa usando um violão naquele estado. O instrumento não estava fora do alcance das mãos do velho; se ele se esticasse um pouco, poderia pegá-lo. Ainda assim, peguei o velho "Kaxyma" (uma marca pirata, pelo visto) e levei até o "velho doido".
    - Aqui está. Você toca? - perguntei, descrente. De repente me lembrei que queria ir embora e seria um erro puxar assunto. Tarde demais.
    - Mas é claro, meu rapaz! Claro que sim... Quer ouvir uma canção? Eu a chamo de "Ode ao Recomeço"... bonito nome, não é? Eu mesmo inventei!!! Hahaha! - e, deixando o papelão de lado, posicionou o violão, preparando-se para tocar. Dei mais um sorrisinho amarelo e olhei para o relógio, deixando escapar um suspiro de impaciência... Hesitei um pouco, mas acabei concordando.
    - Tudo bem...
    - Então lá vai! Woohoo! - começou ele, loucamente, sem me dar tempo para mudar de idéia:

"Abram os olhos, homens mortais
Ouçam atentos, esta canção
Sigam o som da minha voz
Prestem atenção nos meus sinais:

Selva de pedra inundada
Afogada em sentimentos vãos
Ideologia infundada
Sonhando com os pés no chão.

Caia sociedade morta agonizante!
É dia de Natal!
Fora insanidade humana intolerante!
É dia de Natal!
 Fale ao moribundo louco alucinante!
É dia de Natal!
Salve o mundo livre-arbítrio fulminante!
É dia de Natal!
É dia de nasceeer... de novo!!!

Abram a mente, homens mortais
Escutem enfim, com o coração
Matem os seus medos e suas vontades
Aceitem a promessa da Salvação:

Nossa esperança é podada
Sem chances de que irá crescer
Nossa fé é testada
Será que ela irá vencer?

Clame ao novo mundo pobre ignorante! 
É dia de Natal!
Viva à falsa liberdade estonteante!
É dia de Natal!
Chorem idiotas nesta terra suplicante!
É dia de Natal!
Acredite na mudança escória irritante!
É dia de Natal!
É dia de nasceeer... de novo!!!

    Poucos aplausos; o cara me pegou de surpresa. Até que ele não era ruim... era impressionante o modo como poderia tirar alguma melodia daquele violão detonado. A letra era bastante interessante também... e o jeito de cantar, parecia que estava declamando e não cantando os versos. Para um pobre coitado, um mendigo, com um violão de quinta, fora uma demonstração além do esperado. Senti um certo constrangimento por tê-lo subestimado; era um verdadeiro artista, um talento não lapidado, é verdade, mas ainda assim, havia uma beleza rústica naquela apresentação. Uma pequena centelha de talento...
    - Então, meu rapaz, o que achou? - perguntou ele, sorrindo, após escorar o violão novamente na parede.
    - Eu gostei. - abri a carteira, retirei uma cédula de R$ 10,00, algo que nunca fiz por nenhum mendigo na vida, e a ofereci ao velho. Ele sorriu mais uma vez e pegou a cédula, agradecendo muito.
  - Não precisava, meu filho. Não precisava... se eu não necessitasse, não aceitaria. Cantei com o coração, não por dinheiro. - e eu vi em seus olhos que falava a verdade.
    - Disponha, senhor. O senhor merece... tome, aqui está o meu cartão. O senhor poderia se tornar um grande artista, não está interessado? Eu tenho alguns contatos nesse meio...
    - Não, meu jovem, obrigado. Estou velho pra isso; mesmo assim, agradecido.
    Então, como ele não dera sinais de querer o cartão, o guardei na carteira. Eu sabia: era um vagabundo.
    - O senhor é quem sabe... mas seria um sucesso, tenho certeza. Poderia sair das ruas...
    - É gentileza sua... mas tenho uma missão importante, meu rapaz. Uma missão muito importante!
    "Que cara doido. O que será que ele vai aprontar dessa vez?"
    - Jovem, todo mundo nasce com um propósito. Você entendeu a mensagem da minha música?
    - Perdão?
    - A mensagem, filho, a mensagem da música! - e agitou as mãos, como um maestro, no ar.
    "Como assim? É claro que entendera a letra... o que o velho queria dizer?"
    - Eu prestei atenção na letra. É bem interessante.
    - Mas você a entendeu? Entendeu mesmo? Porque nunca é tarde, meu rapaz, nunca é tarde! - e dizendo isso, voltou a pegar o pedaço de papelão, exibindo mais uma vez os dizeres "O FIM ESTÁ PRÓSSIMO".
    "Eu sabia... o cara é louco. Mas é um cara interessante, afinal de contas... Se fosse rico, chamariam-no de excêntrico."
    - Sei... bom, até um dia, quem sabe? Foi bom conhecê-lo, err, senhor...?
    - Hum?
    - Seu nome... qual é o seu nome, senhor?
    - Ah! Me chamo Joshua! Pode me chamar assim... era o nome do meu pai. Ele era um grande homem... Foi rei em uma terra distante e esquecida. Mas eu... Sou apenas um velho músico que nada tem de artista... - e sorriu.
    Rei? Sei... duvido. E outra: que nome estranho... será que ele é descendente de judeus? Bom... eu que não vou perguntar. Tenho que ir, já perdi muito tempo. E ainda vou enfrentar muitas e muitas filas até o final do dia... que canseira.
    - Prazer. Me chamo Ricardo, Ricardo Martins. Sou apenas mais um jornalista. Então até um dia, Joshua, nos vemos por aí. Foi um prazer, mas eu tenho que ir.
    Antes que ele pudesse puxar assunto novamente (o que seria muito chato), apressei o passo e segui adiante. Já ia atravessar a avenida, quando de repente, escutei o chamado aflito do velho. Aborrecido, parei e olhei para trás.
    - O que foi? - perguntei, num tom irritado.
    Ele sorriu, triunfante, antes de dizer:
    - Não está se esquecendo de nada, meu filho? Algo muito importante?
    - Hã?
    Foi tudo muito rápido: uma freada brusca, um ruído de motor velho roncando, um estrondo e mais nada. Me virei e olhei para a avenida. Estava um caos. Aparentemente, um Chevette tinha avançado o sinal vermelho, por pouco não atropelando alguém, mas acabou se chocando violentamente contra um poste mais adiante, do outro lado da rua. Se eu tivesse atravessado essa mesma avenida, segundos antes, teria sido atingido? Não sei dizer... Talvez sim, é provável. Me voltei para o velho, o coração batendo forte, ainda assustado com o  recente acontecimento, para agradecer ao pobre diabo por ter salvo a minha vida. Mas ele não estava mais lá; não havia sinal dele em lugar nenhum, nem mesmo do violão Kashyma outrora encostado naquela mesma parede. Nada, apenas um pedaço de papelão onde estava escrito: "O FIM ESTÁ PRÓSSIMO". Me aproximei, ainda mais assustado. Puta merda, onde está o cara? Para onde ele foi? Mas o que foi isso...?
   Caramba... Ainda não consegui assimilar o que aconteceu. Pego o pedaço de papelão, ainda procurando o velho pelo local. Ele teria corrido no susto? Deve ter sido. Distraidamente, viro a "placa", assim, ao acaso, e atrás dela, encontro os dizeres: "EI, NUNCA É TARDE PARA NASCER DE NOVO...", escritos em tinta vermelha.
    - Nascer de novo...? - murmurei, antes de olhar para trás, na direção do acidente, cuja cena já era cercada por uma multidão de curiosos... Teria sido apenas uma grande coincidência?

**Previsto para ser postado originalmente no dia 25/12/2009, mas devido a uma falha de acesso à minha conta no Blogger, o "Especial 1.0" acabou ficando para este mês. Peço desculpas e espero a compreensão de todos. Até! **


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Perfil - Feliz Ano Novo!!!




"Shin nen Akemashite Omedetou Gozaimasu!! Rainen mo yoroshiku ne!!"

  Me disseram que essa frase aí em cima significa "Feliz Ano Novo!" em japonês... ou pelo menos seria o equivalente a isso (ou até mesmo algo levemente semelhante, na pior das hipóteses). Enfim, é exatamente essa a mensagem que gostaria de passar a todos vocês, que vez ou outra aparecem por estas bandas: FELIZ ANO NOVO!!! Que seja um ano cheio de felicidades, realizações, conquistas... em outras palavras, o pacote completo. Desejo a todos um feliz 2010! (e quem sabe neste ano novo que surge diante de nós,  possamos nos esbarrar novamente?) Até!!

P.s.: Devido a um "pequeno" problema de acesso, um transtorno na plataforma do Google que dá suporte a este blog (no caso, o Blogger), infelizmente terei de deixar o "Ensaio 0.1 - Bonsai", o "Prólogo II" e até mesmo um singelo "Especial" que preparei para o Dia de Natal, para depois. Mas 2010 vem aí, e quem sabe ele me ceda a oportunidade de postá-los?

Image on Deviant art: 2010_by_smLLan

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Perfil - Sobre o Autor


  O final do ano se aproxima... e creio que ainda não me apresentei como se deve. Afinal de contas, por onde anda a tal da boa educação? E além do mais, também estava sentindo falta de um espaço onde eu poderia falar-lhes diretamente... então, eis que surge a  seção "Perfil", nada muito elaborado, confesso, mas ainda assim, um cantinho apenas do autor, onde me comunicarei diretamente com os poucos e prezados leitores que por vezes caminham por estas pradarias.
  Então, vamos às formalidades: meu nome é Bruno Felix Amaral, um escritor amador, como podem perceber, atualmente cursando Jornalismo pela Faculdade Maurício de Nassau, prestes a entrar no 3° período (assim que driblar a recuperação final e recuperar o fôlego nas minhas tão sonhadas férias...) e também, pasmém! Webdesigner nas horas vagas. Não sei se gostaram do meu currículo, mas eu posso conviver com isso. Quanto a minha personalidade, eu não sou muito bom em falar nisso. É uma pequena deficiência em descrições que me acompanha desde que li Machado de Assis... posso falar apenas pela voz de outras pessoas, e como uns me acham louco e outros me acham idiota, passemos adiante.
  Criei o "Setor 3", este blog "interessante" (eu acho) que vocês estão acessando neste exato momento, para expor textos, ensaios (sejam contos ou poesias), letras, rascunhos, enfim... todas as idéias que saem dessa minha cabeça oca cheia de imaginação e pensamentos absurdos. Se bem que... uma vez me disseram que um bom escritor escreve com seu sentimento... e é isso que eu tento fazer aqui. Portanto, deixe-me corrijir: "(...) todas as idéias que fluem de um abismo chamado sentimento". Pode parecer meio piegas, mas ignora e vai andando.
  Espero que tenham me conhecido melhor... e que essa seção sirva para alguma coisa, no futuro.
  Até a próxima! 

  P.s.: Observações quanto às seções atuais do blog: Os Ensaios são contos mesclados com poesias e citações; Os Prólogos são rascunhos, e fazem parte de uma introdução ao romance que pretendo escrever em breve (interessados, aguardem novas postagens); Logo, logo, mais seções surgirão, aos poucos, enquanto vou engatinhando modestamente em direção ao aperfeiçoamento de minha técnica. Obrigando pela atenção!

(Em breve - Ensaio 0.1 e Prólogo II)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ensaio 0.9 - Indefinível...




"Traduza em uma única palavra..."

  Foram poucas as pessoas que conseguiram passar por tão raro e maravilhoso momento. Foi naquela noite que eu a vi completamente: um anjo de beleza, atitude e personalidade indefiníveis. O seu sorriso dissipava as tormentas e o seu olhar me convidava à eterna felicidade; seus lábios continham o néctar milagroso dos deuses e o seu toque arrebatava o coração dos pecadores. Eu era um pecador.
  Juntos, conversamos sobre o paraíso e o inferno. Vislumbramos a alegria e o sofrimento. Prometemos. Deixamos a amizade preservada em nome da vida. Em nome de algo mais... Sorrimos.
  Um beijo. Como pôde um pecador beijar os lábios encantadores de um anjo? Mas que blasfêmia! Não importa, eu evoco a loucura, eu sou o precussor de um milagre. E o valor de um milagre é... impossível de ser traduzido em uma única palavra.

INDEFINÍVEL

"Como o amor, e outros demônios.
Como a essência da felicidade nos pequenos instantes.
Como o alívio ao perceber que está tudo bem.
Como ter a certeza de que alguém acredita em você.
Como o doce sabor do primeiro beijo.
Como a experiência de vivenciar um final feliz.
Como realizar o desejo mais desesperado de seu coração.
Como jamais despertar de um sonho imensuravelmente bom..."

...

  Abro os olhos. Estou sentado numa das muitas carteiras da sala 308. O que houve? Teria dormido? Eu estava muito cansado... Cansado de tudo. Mas de repente, naquele momento sublime...
  Olho para os lados, para todos os lados ao meu redor. Eu vejo as pessoas, aquelas mesmas pessoas em tons de cinza. Eu vejo um cenário em preto e branco, tosco e sem vida. Mas não as cores primordiais... Onde está o anjo que me salvou da beira do abismo? Eu a procuro com os olhos, mas já não posso ver... Um único e terrível pensamento me faz entrar em desespero, mas eu não quero acreditar. Teria sido apenas um sonho? Um sonho, apenas...
...

  Uma carteira está vazia. Todos parecem me ignorar, e quando finalmente me escutam, me chamam de louco. "Um anjo?"- me dizem. "Anjos não existem. Jamais a vi." Não, não me digam que ela nunca existiu... por favor. Saio em disparada, atravesso os corredores, perco as esperanças. Eu me lembro... foi tudo real. Tem que ter acontecido. Tem que ser verdade! Será que estou sonhando que ela nunca existiu? Ou será ... será que eu estava sonhando que ela um dia existira? O que é sonho e o que é real?
  Eu não consigo escapar. Tons de cinza sobre um fundo preto e branco... É o inferno. O verdadeiro inferno é viver em um mundo onde você não possa existir...
  Sigo, sem fôlego, e chego na praça. As estátuas de mármore me encaram. Elas parecem saber de alguma coisa... "Por que sonhar? A sua sina é a morte. Os seus pés têm de tocar no chão frio da realidade. Anjos não dizem "eu te amo". Momentos como aquele são meras ilusões. Os sonhos deixarão de ser sonhos quando se tornarem realidade, e essa mesma realidade é o verdadeiro juíz, e também o carrasco dos seus sentimentos. Desista!"
  Não. O ponto de ônibus, a minha última parada. Não a vejo. Não há ninguém. Tiro o celular do bolso, procuro o número dela na lista de contatos. Inexistente. Por quê? Por que acreditar num sonho, mesmo que ele se assemelhe à realidade? O pecador está fadado ao sofrimento. Então, o pecador se agarra ao amor. Sem saber... sem saber que o amor não passa de uma quimera criada para tranquilizar os homens. Para resgatá-los do desespero. Mas, no fundo, é apenas uma segurança invisível...
  Eu lembro dos nossos poucos momentos juntos. Cada um deles passa pela minha mente neste instante. Eu os vivencio mais uma vez. Uma lágrima escapa e timidamente chega ao chão. Droga! Não chore... não devo chorar. Essa é a vida.
  A lembrança de um velho amigo se aproxima. É apenas uma lembrança... de algo que ouvi há muito tempo:
  "Vale a pena amar? Vale a pena gostar de alguém?"
  O dilema do ouriço. Era uma fábula interessante... Eu sempre tive dificuldade em me aproximar das outras pessoas. Medo de me apegar a elas e acabar pagando o preço. Porque eu sabia... pior do que viver a dor de se estar sozinho é viver a dor de pagar o preço... ao se importar com alguém.
  O dilema do ouriço. Quando dois ouriços decidem ficar juntos, eles têm de suportar a dor causada pelos próprios espinhos. Eis o dilema - o que é mais importante: a necessidade de ficarem juntos ou o medo de ambos ao sofrer a dor alucinante provocada pelos seus espinhos? Assim também são os seres humanos...
  É, eu me lembro. Mas... Mesmo que tenha sido apenas um sonho... mesmo que jamais tenha acontecido de verdade... Eu sinto que tudo valeu a pena. Porque tudo vale a pena por você...
  Fecho os olhos e me imagino mais uma vez do outro lado...

...

  Abro os olhos. Estou sentado num banco de praça, é noite, um anjo me abraça suavemente, sussurando palavras gentis em meu ouvido. Então...
  - Você adormeceu por um instante... estava muito cansado. Mas eu cuidei de você...
  Eu a abraço forte e beijo os seus lábios. Então... não fora um sonho. Ou fora? Uma sensação indescritível invade o meu peito, e sinto que não importa. Apenas viva o momento. Sim, vale a pena gostar de alguém... Eu jamais estarei sozinho. Você me ensinou isso... me ensinou algo muito importante, e eu serei eternamente grato. Mesmo que um dia, nossos caminhos se separem... eu agradeço por ter surgido em minha vida! Por ter surgido em meus sonhos...
  - Você sabia que os anjos não dizem "eu te amo"? - perguntei, sorrindo. - Porque não existem palavras para descrever um sentimento como o amor. Em vez disso, eles apenas vivem plenamente o indefinível...
  Ela sorriu. Então, falou docemente, estreitando o olhar enigmático e sedutor:
  - Traduza em uma única palavra o que aconteceu hoje...
  Eu a beijei.

**Dedicado a um anjo de beleza, atitude e personalidade indefiníveis. Obrigado por existir, Dri.**

(Next: Ensaio 0.1 - Bonsai)

- Image Credits: Wandering Angel by Kencho, on Deviantart. -

 

domingo, 22 de novembro de 2009

Ensaio 0.8 - Guloseimas





  - Você é um chato, um grosso, ignorante e idiota. - declarou ela, da forma mais gentil que pode encontrar, o que não necessariamente significa uma boa coisa. Parecia estar realmente estressada naquela noite, e para piorar toda a situação, havia sido provocada de uma forma revoltante. O estranho, aquele desgraçado petulante, tinha ousado roubar a sua deliciosa surpresa de uva!
  - Calma, guria. Muita calma nessa hora... -  e comeu o doce numa bocada só. - Por que você não toma um pouco de Coca-cola? Quem sabe assim você... - ia dizendo ele, oferecendo a latinha do precioso líquido, como quem sela a paz, mas foi bruscamente interrompido por um berro.
  - Mas essa coca era minha!!! É minha! E é lógico que EU vou bêbe-la, sozinha! Me dá isso aqui! - e tomou a latinha das mãos do coitado. Que violência! Ele sorriu, irônico.
  - Bem que me falaram que "nunca se deve fazer cócegas num dragão adormecido..." - murmurou, mas dissera a coisa errada.
  - O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE?! TÁ DOIDO, É?!
  - ...
  Ela soltava fumaça pelas narinas, estava vermelha como se o sangue estivesse fervilhando, o olhar brutalmente assassino. O indivíduo percebeu o perigo eminente, e foi tratando de mudar logo o discurso, assumindo um tom condescendente:
  - Olha, guria, veja pelo lado bom. Ultimamente, você tem comido muitas besteiras e se continuar assim, vai acabar ficando, digamos, "fofinha"... assim, considere o que fiz como uma ajudinha...
  - PAF!
(...)

  A garota das guloseimas olhava através da janela. Observava o mundo. As pessoas, jovens, maduras, caretas, estilosas, descoladas, certinhas, puritanas, pervertidas, porra-loucas, intelectuais e bêbados, de todas as tribos, passavam lá embaixo. Era um amálgama de personalidades diversas e pensamentos distintos, definido simplesmente (tanto pelos estúpidos quanto pelos especialistas) como FACULDADE. Ela sorriu para si mesma. Tinha conseguido.
  O mesmo "chato" de antes se aproximou cautelosamente dela, que ainda observava o movimento lá fora, distraída. Ele se acomodou no suporte de braço da carteira, de modo que mesmo sentado pudesse ver através da janela. Ela notou a presença dele e deu um muxoxo de impaciência.
  - Lá vem...
  Ele sorriu, em resposta.
  - Sabe, se você olhar atentamente, ainda é possível ver a marca que a sua mão fez na minha cara... Não precisava ter ido tão longe.
  Ela deu uma risadinha maldosa, e depois sorriu. Ainda parecia um pouco assustadora.
  - Você mereceu. Bem feito!
  Talvez tivesse razão.
  - Tudo bem... me desculpe então. Aceite isso, como uma compensação pelos meus comentários... - e, retirando um bombom de chocolate do bolso, ofereceu a ela. Era um Sonho de Valsa.
  - Olha só, o grosso sendo gentil... que milagre.
  - É sério, foi mal.
  - É, foi mal meeeesmo. Mas eu não posso aceitar.
  - Por quê?
  - Não como chocolate. - Ela tinha um bom motivo para recusar. E quanto à promessa? Um Sonho de Valsa é tentador demais...
  - Pode aceitar, não está envenenado. Ou será que você levou a sério o que eu disse a respeito de "ficar fofinha"? Tá de regime agora, é?
  - Calado. Pare de falar que eu vou ficar gorda.
  - Tá bom...
  - Olha, é uma promessa, tá legal? Eu fiz uma promessa e alcancei a graça. Não vou comer chocolate nunca mais!
  - Sei... uma promessa, é?
  - É.
  - Tudo bem, se é importante pra você, pensarei em outra coisa.
  Ela já tinha ficado um pouco estressada, ponderou ele. Então, sem chocolates...
  - ...
  - Que foi? - perguntou ela.
  - É que faz sentido. Como não pode comer chocolate, exagera em todo o resto, não é? Hehehe!
  - PAF!
  - ...
(...)
  Outra noite. Hoje, ela aparenta estar um pouco mais amistosa. Tanto que ele achou seguro se aproximar.
  - Está de bom humor hoje, é?
  - É. - retrucou ela, rapidamente. - Mas não tão bom assim...
  Risos. A galera se aproximou. Todos conversavam sobre bobagens e riam facilmente. O clima era bastante agradável. Ele até chegou a poupar a surpresa de uva dela dessa vez...
  - Olha, eu vou te escrever um conto.
  - Hã?
  - É, um conto. Como não aceitou o chocolate, foi a única coisa na qual eu pensei. Não sou muito bom, mas vá lá. Você não fez nenhuma promessa quanto a isso, fez?
  - Não. - ela riu. - Tudo bem, aceitarei o conto. Vou cobrar, viu!
  - Tudo bem.
  Sabe, até que ele não era tão chato assim?
  - Hehehe. É estranho não ser esmurrado, estapeado ou esganado por você. Parabéns! Está deixando de ser aquela histérica, chata, ignorante, neurótica, estressada, enjoada, louca e assustadora...
  - PAF!
  (...)

  Uma manhã. Ela estava online, logada no Twitter. Ele também. Essa é mais uma daquelas coisas que acontecem no Twitter... O que você está fazendo?
  "Terminando o trabalho de economia. Agora só falta o fichamento do texto de filosofia..." - "twittou" ela.
  "@Guloseima Que fichamento é esse? Tou por fora! ^^" - "twittou" ele.
  "@Chato3 Devia prestar atenção na aula, pra variar! =P" - "twittou" ela em resposta.
  "@Guloseima Nossa, você realmente me ama." - "twittou" ele, em réplica.
  "@Chato3 kkkkkkkkkkkkkkkkkk Nem morta!" - "twittou" ela, e, tréplica.
  É, tem razão. Mas ela é bem interessante... Devia ser um pouco mais amigável. Mas e o fichamento? Que preguiça...
 
  Já ela, pensava na própria vida. Nas coisas que tinham acontecido até agora, tudo o que já vivenciara. Era estranho. Era algo que tinha ouvido há muito tempo: a vida é como uma peça de teatro. Por isso, cante, grite, chore, ame, dance e viva antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos. É como uma peça de teatro que não nos permite ensaios...
  Ela fechou os olhos. A vida se arrastava, dia após dia. Era preciso ser louco para se jogar de cabeça, sem medo de se esborrachar no chão. Feche os olhos, se jogue! É difícil. Ela pensou em Carpe Diem. Viva cada segundo como se fosse o último... Viva o hoje, sem pensar no amanhã. Cada momento era único.
 
  "Quando eu fecho os olhos, eu vejo a vida em slides." - "twittou" ela.
  Alguns minutos sem novos tweets. De repente:
  "@Guloseima Quando eu fecho os olhos, eu não vejo nada. Deve ser porque estou de olhos fechados..." - "twittou" ele.
  Apenas uma palavra surgiu na mente dela, murmurada naquele exato momento:
  - Ridículo.
(...)
  Naquele mesmo dia, à noite.
  - PAF!
  - Por que você me bateu? - indagou ele, massageando a costela.
  - Você é um ridículo.
(...)

  Mas uma noite, dias depois. Novamente, ela observava o mundo através da janela. O vai-e-vem das pessoas lá embaixo...
  - Lá no interior onde você mora, não tem TV não? - perguntou ele de longe, de surpresa. Ela fez mira e jogou a latinha de Coca-Cola com toda a força, mas errou. Ele se aproximou, agora cauteloso.
  - Fiquei sabendo que amanhã é seu aniversário. Te entrego o conto amanhã!
  - Como quiser. - ela voltou a observar os passantes, devorando um pacote de Rufles.
  - Nossa, você realmente gosta de se entupir com essas bobagens. Só nos últimos trinta minutos você comeu um pedaço de torta, uma surpresa de uva e tomou uma latinha de coca. Além da batatinha... O que mais me impressiona é que você não engorda nem um pouco. Pelo contrário, parece até que perdeu peso.
  - Quer apanhar, é? - ameaçou ela, estreitando os olhos. - Meu corpo é lindo, saudável e perfeito.
  - Sei... se você diz com tanta convicção...
  - CLING!
  - Você... grampeou meu dedo...
  - Devia era grampear sua língua!
  (...)
  O dia do aniversário. Ou melhor, a noite. Comemoração, cumprimentos, celebração. Abraços e sorrisos. Boas gargalhadas. Então, era hora de cantar "Parabéns para você" Não importa se inúmeros desconhecidos também estejam por perto...

  "Parabéns para você. Nesta data querida.
   Muitas felicidades, muitos anos de vida..."

  - Que mico... - ela deu um sorriso forçado, envergonhada.

"Haha! Huhu! Ô guria eu vou comer o seu bolo!
  Haha! Huhu! Ô guria eu vou comer o seu bolo!"

  Adivinha quem puxou essa? Ele mesmo...
  - O primeiro pedaço não é seu. - taxou ela, categoricamente.

(...)

  Hora dos presentes. Ele foi o último. Segurava umas folhas de papel datilografadas, e se aproximou confiante, esboçando um sorriso.
  - Eis o conto. Espero que goste.
  - Eu vou ler.  Mas se for mais uma palhaçada sua...
  - É a história da sua vida.
  - PAF!
  - Não precisava ter feito isso. Eu não quis dizer nada. Ah, é claro que não é a história da sua vida toda, é apenas um ensaio sobre nossas brigas e discussões. É cômico e divertido.
  Ela riu. Por essa ela não esperava...
  - Quer dizer que eu sou a personagem principal?
  - É.
  - Hum... você é mesmo um idiota. Por que escreveu sobre isso?
  - O porquê não importa... Saiba apenas que a vida é como uma peça de teatro que não nos permite ensaios. Antes que as cortinas se fechem, cante, grite, chore, ame e viva intensamente. Se jogue de cabeça, sem medo de cair. Feche os olhos e vivencie cada slide, como você mesma disse. Antes que a peça acabe sem aplausos... Mas se por acaso, isso acontecer, saiba que os meus aplausos você sempre terá.
  Ela ficou sem palavras. Não faz sentido. Por que ele se importa?
  - Por que escreveu o conto?
  - Porque eu tenho certeza que você é muito mais do que deixa transparecer. Achei que o conto poderia te mostrar isso...
  - Como assim?
  - Aquela pessoa rude e esquentada é apenas uma armadura que esconde a garota doce que ainda acredita no melhor da vida. Essa garota doce é você... tão doce quanto as guloseimas que come. É assim que eu te vejo.
  Ela o abraçou. Que milagre.
  - Obrigada. Como você consegue me aturar, hein?
  - Isso é um privilégio de poucos... - respondeu o escritor.
  Ela sorriu mais uma vez, e examinou as páginas datilografadas. Reparou no título.
  - Mais uma pergunta, seu ridículo e imprevisível... - e mostrou o título do conto.

GULOSEIMAS
  - Hum?
  - Esse título, por que você o escolheu? "Guloseimas"... Tinha que ter um tom irônico.
  - Eu pensei que se você consegue digerir todas aquelas porcarias, conseguiria digerir o que escrevi nesse conto, se ao menos tivesse um nome adocicado. Hehehe.
  - Paf!
  - Engraçado, esse tabefe não foi tão forte quanto eu esperava...
  - Você também não era tão idiota quanto eu esperava...
  - De qualquer forma, feliz aniversário!
  - Obrigada!

  E a festa teria continuado tranquila se não fosse pelo desastre da Fanta Uva, pela falta de Coca-Cola e pela falta de tato dele, ao fazer mais um comentário esdrúxulo...

**Dedico este à aniversariante, a doce garota por trás da armadura. Feliz aniversário, Arytãnia! 21/11/09**

(Next: Ensaio 0.9 - Indefinível)

- Imagem manipulada; - créditos:  Rena Yuki, in Deviantart; -


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ensaio 0.7 - Sob o Guarda-chuva...




Uma noite de chuva.

Foi numa noite qualquer, num período qualquer.
Chovia. Chovia forte. Chovia muito.
Dois estranhos. Sim, eles se conheciam. Eram estranhos apenas para os outros...
Um coadjuvante. Ele não será citado aqui.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva.
SIm. Havia um guarda-chuva. Era pequeno, mal dava para os dois.
Um garoto e uma garota. Dois jovens estranhos.
Estava frio, estava escuro. Estava molhado também.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva, numa noite chuvosa.
Foi uma noite inesquecível...
Voltavam para casa. Ele e ela. Ele a levava para casa.
Juntos.
Abraçados e espremidos sob aquele pequeno guarda-chuva, menor que o juízo dele...
Estava frio, estava escuro. Mas quem se importa?
Estava molhado também. Úmido. Mas e daí?
Era perfeito.
Juntos, seguiam em frente.
Ela contava histórias engraçadas. Sorria. Implicava com ele.
Ele fazia comentários idiotas. Ria. Implicava com ela.
Se envolviam  e se inebriavam.
A felicidade é um pouco estúpida. Mas está nos pequenos instantes...
Juntos, seguiam em frente.
A certa altura do percurso, ela reclamou de cansaço.
Seria verdade? Seria um motivo? Seria uma desculpa?
Ele se ofereceu para carregá-la nos braços.
Sob um pequeno guarda-chuva essas coisas acontecem.
Ela riu, ele riu, eles riram.
Ele sabia que não era forte o bastante.
Ela sabia que ele não conseguiria ir muito longe.
Ele a tomou nos braços e seguiram juntos.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva, numa noite chuvosa.
Era uma situação estranha.
Ela continuou implicando e sorrindo. Era uma combinação incomum...
Ele continuava sorrindo e implicando. Não era de todo inédito...
A chuva continuava a cair.
Por algumas quadras, ele conseguiu. Mas...
A certa altura do percurso, ele não aguentava mais.
Ela percebeu, e falou que já não estava mais cansada.
Ele prometeu que um dia a carregaria nos braços, por todo o caminho.
Ela assentiu, sorrindo, e disse que jamais se esqueceria da promessa.
Era engraçado. Era estranho. Era aceitável. Era perfeito.
Risos.
Juntos, seguiam em frente.
Ele a olhava com outros olhos.
Ela o olhava com os mesmos olhos que o fizeram olhá-la daquele jeito.
Eram apenas dois estranhos sob um pequeno guarda-chuva.
E um coadjuvante encharcado e aborrecido. Passemos.

Aos poucos, a chuva abrandava.

Eis o fim do percurso.
Eles se olharam. Era a hora da despedida. O desfecho.
Ela sabia de alguma coisa.
Ele não sabia de nada.
Um abraço apertado. Um beijo simplório. Se despediram.
Ela se foi. Atravessou a rua. Os caminhos se separam.
Ele a observou partir.
Agora ele sabia.

O que importava de verdade era o jeito como ela olhava para ele, naquela noite chuvosa.
E como ele olhou para ela.
A chuva também se fora.
Era hora dele ir, também.
Eram apenas dois estranhos seguindo para casa.
E uma estranha sensação...
Adeus.




 **Dedicado à garota daquela noite inesquecível. A minha adorável (e intragável) Uxa.**


(Next: Ensaio 0.8 - Guloseimas)

- Image by Fbuk; Umbrella figure, in Deviantart. -